1. A fase judicial do processo de extradição tem por objeto a apreciação das condições de forma e de fundo do pedido, não sendo admissível prova sobre os factos imputados ao extraditando (artigo 46º, nº 3, da Lei nº 144/99, de 31.08). 2. De facto, o tribunal não aprecia a autoria ou a participação do extraditando, nem a suficiência da prova do processo do Estado Requerente, o que não equivale a ausência de controlo jurisdicional dos pressupostos da extradição, da dupla incriminação e das causas de recusa. 3. O fundamento do artigo 55º, nº 2, alínea a), da Lei nº 144/99 respeita à identidade entre a pessoa detida e a pessoa reclamada, ou seja, ao erro sobre a pessoa, não se enquadrando nele a alegação de que o extraditando não praticou os factos, por se encontrar noutro país, ou de que as autoridades do Estado requerente erraram na atribuição da autoria, designadamente por meio de reconhecimento fotográfico, matéria que respeita à autoria e não à identidade. 4. A exigência de exposição dos factos [artigo 12º, nº 2, alínea b), da Convenção Europeia de Extradição e artigo 23º, nº 1, da Lei nº 144/99] visa delimitar o objeto da entrega e permitir o juízo de dupla incriminação e a verificação das causas de recusa, bastando que a narração seja inteligível e suficientemente delimitada e não se exigindo a individualização de cada ato nem os requisitos de uma acusação. 5. A dupla incriminação não exige identidade de qualificação jurídica entre os ordenamentos, nem se basta com a coincidência nominal dos tipos: compara-se a conduta narrada no pedido, tomada como hipótese, com a lei portuguesa, bastando que seja punível com pena que preencha o limiar legal. 6. Imputando-se uma atividade organizada e reiterada de comercialização de estupefacientes, e não a mera detenção para consumo próprio, não é aplicável o regime da Lei nº 30/2000, de 29.11, não afastando as quantidades, em si mesmas, o enquadramento da conduta no crime de tráfico - o limiar convencional mantém-se satisfeito ainda que a conduta seja enquadrável no tráfico de menor gravidade (artigo 25º do DL nº 15/93), e é atingido por um só dos factos descritos, sem necessidade de somar quantidades. 7. A garantia de especialidade do artigo 44º, nº 1, alínea c), da Lei nº 144/99 basta-se com declaração formal do Estado requerente, não exigindo instrumento autónomo. 8. A titularidade de autorização de residência ao abrigo do regime de proteção temporária [Diretiva 2001/55/CE; Decisão de Execução (UE) 2022/382] não constitui, por si, imunidade perante a extradição. 9. A proibição de refoulement releva na apreciação do risco real de violação de direitos fundamentais decorrente da entrega [artigo 6º, nº 1, alínea a), da Lei nº 144/99]. 10. A situação pessoal e familiar do extraditando (filhos menores, integração social e profissional, ausência de rede de apoio no Estado requerente) não constitui causa autónoma de recusa da extradição, não se confundindo com as medidas de afastamento de estrangeiros, relevando na ponderação da proporcionalidade da entrega (artigo 18º, nº 2, da Lei nº 144/99 e artigo 8º da CEDH). 11. A recusa por motivos políticos (artigo 33º, nº 6, da CRP) exige a demonstração de que o pedido ou o processo são instrumento de uma finalidade política. 12. A situação de conflito armado, a vigência de lei marcial e a existência de um regime de mobilização militar constituem contexto, mas não bastam, sem factos concretos. 13. O artigo 6º, nº 1, alínea a), da Lei n.º 144/99 impõe a recusa da cooperação quando o processo do Estado requerente não satisfaça as exigências da CEDH - esta causa de recusa não permite reapreciar a acusação, a suficiência da prova ou a responsabilidade criminal do extraditando, e não basta qualquer irregularidade processual nem a referência abstrata à situação política, militar ou institucional do Estado requerente. 14. Encontra-se preenchido o requisito negativo do artigo 6º, nº 1, alínea a), quando existam razões sérias e objetivamente fundadas para considerar que a entrega exporia o extraditando a um risco real de flagrante denegação de justiça (flagrant denial of justice; TEDH, Soering c. Reino Unido, 07.07.1989, e Othman (Abu Qatada) c. Reino Unido, 17.01.2012), e, por maioria de razão, quando exista um risco sério e efetivo, concretamente respeitante ao extraditando, de violação das garantias da Convenção. 15. A presunção de inocência (artigo 6º, nº 2, da CEDH) impede as autoridades públicas de apresentarem o visado como culpado antes de a sua culpa ser legalmente provada. 16. Segundo a jurisprudência do TEDH, distingue-se a comunicação de uma suspeita da afirmação de que o crime foi cometido (Allenet de Ribemont c. França, 10.02.1995; Daktaras c. Lituânia, 10.10.2000; Shagin c. Ucrânia, 10.12.2009). 17. As autoridades podem informar o público sobre investigações em curso, designadamente para localizar pessoa procurada, mas com a reserva que aquela garantia impõe, e a apreciação assenta no conteúdo objetivo da comunicação e não na intenção com que foi redigida. 18. Uma decisão de extradição só suscita questão à luz do artigo 6º, nº 2, quando os seus termos equivalham em substância a uma determinação de culpa (Ismoilov e outros c. Rússia, 24.04.2008). 19. Pode fundar a recusa da extradição, nos termos do artigo 6º, nº 1, alínea a), a declaração pública, divulgada em canal oficial pela estrutura policial que conduz a investigação, que identifica o extraditando por fotografia e dados pessoais, na data da emissão do pedido de detenção provisória, e afirma que se encontra em fuga «por ter cometido um crime». 20. O risco é aferido pela conjugação do objeto da declaração (a prática do crime, questão central do julgamento), da sua origem, da individualização do visado e inserção no procedimento, e da fase em que ocorre, e não pela declaração isoladamente considerada, não se presumindo, só por ela, a parcialidade do futuro julgamento. 21. As garantias diplomáticas prestadas pelo Estado requerente constituem fator pertinente na apreciação do risco, mas o seu valor depende da aptidão concreta para o afastar (Othman c. Reino Unido). 22. Garantias respeitantes às condições materiais de detenção e ao acompanhamento consular não respondem a um risco de natureza processual, e a garantia genérica de processo equitativo, por reafirmar obrigações já decorrentes da vinculação à CEDH, bem como a mera disponibilidade para prestar garantias adicionais, não o afastam. 23. A recusa de extradição com fundamento no artigo 6º, nº 1, alínea a), exige factos concretos e individualizados, não bastando a invocação da situação geral do Estado requerente, de conflito armado ou de lei marcial e não envolve juízo sobre a culpa ou a inocência do extraditando. (Sumário elaborado pela Relatora)