Sumário (Responsabilidade da Relatora)
I. Nos processos ao abrigo da Convenção da Haia de 1980, os princípios da urgência, da celeridade (artigos 2.º e 11.º) e o superior interesse da criança impõem a manutenção do regime-regra do efeito meramente devolutivo do recurso (artigo 32.º, n.º 4 do Regime Geral do Processo Tutelar Cível).
II. A eventual perda da utilidade prática do recurso, tal como as alegações de mérito sobre as exceções dos artigos 13.º e 20.º da Convenção, não justificam, por si sós, e sem a demonstração de circunstâncias excecionais concretas, a atribuição de efeito suspensivo, sob pena de se inverter a regra geral, frustrar os compromissos internacionais assumidos pelo Estado Português e comprometer a eficácia da Convenção, mostrando-se o direito à tutela jurisdicional efetiva (artigo 20.º, n.º 1 da Constituição da República Portuguesa) plenamente salvaguardado com a admissão e regular processamento do recurso.
III. O procedimento de regresso previsto na Convenção da Haia de 25 de outubro de 1980 assume natureza urgente e finalidade eminentemente restitutiva, destinando-se a restabelecer a situação existente antes da deslocação ou retenção ilícita da criança, não constituindo meio processual adequado para decidir sobre o mérito do exercício das responsabilidades parentais.
IV. A insuficiência da instrução da causa apenas justifica a anulação da decisão quando a diligência omitida se revele indispensável à apreciação das questões que integram o objeto do procedimento de regresso, não bastando que a mesma possa revelar-se útil ou complementar.
V. A natureza de jurisdição voluntária do processo e os poderes oficiosos conferidos ao Tribunal da Relação não exoneram a parte do cumprimento dos ónus de impugnação da decisão sobre a matéria de facto previstos no artigo 640.º do Código de Processo Civil, não incumbindo ao tribunal ad quem suprir a respetiva inobservância através da ampliação oficiosa de factos que não foram concretamente indicados pela recorrente.
VI. A exceção do artigo 13.º, n.º 1, alínea b), da Convenção pressupõe a demonstração de um risco grave, atual e efetivo para a Criança, não bastando a verificação de um episódio isolado, ainda que objetivamente grave, quando exista capacidade de proteção pelas autoridades do Estado da residência habitual da Criança.
VII. A oposição da criança ao regresso (artigo 13.º, segundo parágrafo, da Convenção) não tem caráter vinculativo, constituindo antes elemento a ponderar pelo tribunal em função da idade, maturidade, autonomia, estabilidade da vontade manifestada e demais circunstâncias do caso.
VIII. O fundamento de recusa previsto no artigo 20.º da Convenção possui natureza excecionalíssima e traduz a manifestação da ordem pública internacional do Estado requerido, aplicando-se apenas quando o regresso se revele manifestamente incompatível com os princípios fundamentais relativos à proteção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais.
IX. Mantendo-se a decisão de regresso, podem ser determinadas medidas complementares de proteção destinadas a assegurar a articulação com as autoridades do Estado da residência habitual e a prevenir eventuais riscos para a Criança na execução do regresso.