I. Apurando-se que o arguido, ao longo de quase dois anos, procedeu à venda de cocaína e canábis a consumidores com os quais se encontrava em locais públicos, mediante prévios contactos telefónicos que permitiam realizar entre dois e oito transações por cada saída e ocorrendo a entrega do estupefaciente e pagamento do preço dentro de veículos automóveis cujos modelos ia alternando por trabalhar em stand automóvel e que, no âmbito de buscas em diversos espaços físicos, revelou ter na sua posse cerca de 122 gramas de cocaína com graus de pureza entre 16,4% e 82% e cerca de 3,5 quilogramas de Benzocaína, Fenacetina e Manitol que usava para o corte de estupefacientes, tal factualidade integra o crime de tráfico de estupefacientes, p. e p. pelo artigo 21.º, n.º 1 do Decreto-Lei n.º 15/93, de 22 de janeiro e não o crime de tráfico de menor gravidade do artigo 25.º, alínea a) do mesmo diploma.
II. O desvio para a moldura penal abstrata mais favorável do artigo 25.º, alínea a) do Decreto-Lei n.º 15/93, de 22 de janeiro para punição de factos ilícitos típicos que, na sua materialidade, são os mesmos da previsão do tipo legal de crime base constante do artigo 21.º, apenas é possível provando-se que a ilicitude do facto se mostra consideravelmente diminuída, tendo em conta nomeadamente os meios utilizados, a modalidade ou as circunstâncias da ação, a qualidade ou a quantidade das plantas, substâncias ou preparações.
III. Essa diminuição da ilicitude sempre terá de ser em elevado grau para que o arguido possa beneficiar da verdadeira atenuação da pena que representa tão substancial redução da moldura penal abstrata, pelo que não pode resultar, apenas, da circunstância de o tribunal não ter conseguido apurar quais as concretas quantias vendidas a cada um dos consumidores ou quais os valores por estes pagos ao arguido no âmbito das transações atestadas por vigilâncias policiais, por daí não se lograr inferir, necessariamente, serem reduzidas as quantidades transacionadas.
IV. É adequada a pena de prisão de 2 anos e 6 meses pela prática de crime de detenção de arma proibida, p. e p. pelo artigo 86º, n.º 1, alíneas c) e e) da Lei n.º 5/2006, de 23 de fevereiro, imposta a arguido que, sem autorização legal para o efeito, é detentor de três armas de fogo, uma delas caçadeira de canos e coronha cerrados e calibre 12 mm, um revólver calibre 32 SW Long e uma pistola de calibre 6,35 mm e de 554 munições de diversos calibres, estas passíveis de municiar aquelas armas.
V. Não é excessiva a pena de prisão única fixada em 7 anos no âmbito do cúmulo jurídico das penas parcelares de 6 anos de prisão pela prática de um crime de tráfico de estupefacientes, p. e p. pelo artigo 21.º, n.º 1 do Decreto-Lei n.º 15/93, de 22 de janeiro e de 2 anos e 6 meses de prisão pela prática de um crime de detenção de arma proibida, p. e p. pelo artigo 86º, n.º 1, alíneas c) e e) da Lei n.º 5/2006, de 23 de fevereiro, uma vez que se trata de dois crimes de perigo, causadores de elevado alarme social e passíveis de, na sua decorrência, resultarem outros crimes contra o património ou contra as pessoas, por isso com elevadas necessidades de prevenção geral.
VI. Verificando-se, relativamente a arguido detentor de 8 embalagens de canábis, com grau de pureza de 12,8THC e peso líquido de 72,292 gramas, correspondente a menos de 185 doses médias individuais diárias, a absolvição pela prática de um crime de tráfico de estupefacientes, p. e p. pelo artigo 21.º, n.º 1 do Decreto-Lei n.º 15/93, de 22 de janeiro e a condenação pela prática do crime de tráfico de menor gravidade do artigo 25.º, alínea a) do mesmo diploma, por o tribunal ter relevado a informação prestada pelo arguido de que guardava os estupefacientes para seu uso e de um grupo de amigos que iriam consumir conjuntamente nas férias, tal declaração não releva como confissão, mormente para efeitos de redução da pena ao mínimo do tipo legal, justificando-se, pela mera consideração da importante quantidade de estupefaciente em causa, que a pena a fixar pelo tribunal se afaste desse mínimo.