I - Os processos cautelares têm função instrumental, destinando-se a assegurar a utilidade da sentença a proferir no processo principal - o que tem por objeto a decisão sobre o mérito do litígio - razão pela qual os critérios de decisão das providências, tal como acolhidos no artigo 120º do CPTA, fazem depender a concessão de providência cautelar da verificação de dois requisitos essenciais há muito enunciados porpericulum in moraefumus boni iurisao estatuir no seu nº 1 que “…as providências cautelares são adotadas quando haja fundado receio da constituição de uma situação de facto consumado ou da produção de prejuízos de difícil reparação para os interesses que o requerente visa assegurar no processo principal e seja provável que a pretensão formulada ou a formular nesse processo venha a ser julgada procedente”.
II - A rejeição liminar do requerimento inicial de uma providência cautelar, com fundamento na alínea d) do nº 2 do art.º 116.º do CPTA, só deve ocorrer quando seja manifesta a falta de fundamento da pretensão, exigindo, por um lado, que seja imediatamente detetável perante os termos em que o requerente a formula e delimita no requerimento inicial, e, por outro, que outra conclusão não possa ser alcançada numa subsequente análise, mesmo que perfunctória, própria da decisão cautelar.
III - O juízo sobre a manifesta falta de fundamento da pretensão, motivador da imediata rejeição, em sede de despacho liminar, do requerimento da providência cautelar, apela, assim, a um duplo critério: o da evidência, dispensando, assim, mais averiguações ou ponderações; e o da certeza, apoiado na convicção firme e segura de que a pretensão do requerente deverá ser, à luz do direito, indeferida. Só validado este duplo critério se justificará a rejeição liminar do requerimento inicial da providência cautelar com fundamento na alínea d) do nº 2 do artigo 116º do CPTA.
IV - A norma do art.º 122.º, n.º 1, alínea j) do Regime Jurídico de Entrada, Permanência, Saída e Afastamento de Estrangeiros do Território Nacional (Lei n.º 23/2007, de 04/07) dispensa a necessidade de visto de residência para a autorização temporária de residência aos nacionais de Estados terceiros que não se tenham ausentado do território nacional e cujo direito de residência tenha caducado, como claramente decorre do inciso “com dispensa” constante da sua epígrafe e da menção “não carecem de visto” constante da parte inicial do seu n.º 1, não atribuindo o direito potestativo à autorização de residência, que continua a estar sujeita aos demais requisitos exigidos na lei.
V - Se o Requerente não põe em causa os pressupostos de facto em que assentou a decisão administrativa suspendenda, não se pode dizer que a sua pretensão, à emissão da autorização de residência, foi ilegalmente recusada, e se assim é, também não se pode reconhecer a viabilidade da pretensão a formular na ação principal, destinada não só à impugnação do ato de indeferimento, e da consequente notificação para abandono voluntário, mas também à condenação da Entidade Requerida à prática de ato devido, consubstanciado no deferimento do pedido de autorização de residência.
VI - Se o Recorrente passou a reunir, posteriormente à decisão administrativa suspendenda, condições para a atribuição da autorização de residência, designadamente para o exercício de atividade profissional subordinada a que se refere o art.º 88, então haverá de submeter o respetivo pedido de autorização de residência fundada nessas (novas) circunstâncias.* * Sumário elaborado pela relatora (art. 663º, n.º 7 do Cód. Proc. Civil)