Sumário
I - Ao contrato de empreitada aplicam-se, para além das normas especiais previstas nos artigos 1207º e segs. do Cód. Civil, o normativo geral relativo ao cumprimento e incumprimento das obrigações, que com aquelas se compatibilizem, nomeadamente as normas relativas ao cumprimento das obrigações segundo os ditames da boa fé – 762º -, as referentes à mora e incumprimento das mesmas obrigações – 804º, 801º e 802º - e as relativas à própria resolução contratual – 432º ;
II – aprovando o dono da obra os trabalhos a mais realizados, bem como aceitando-os e aprovando-os com determinado valor perante a empreiteira, após a dedução do valor dos trabalhos contratualizados não executados, surge como indubitável a sua responsabilização pelo seu pagamento ;
III – efectivamente, sendo a execução de tais trabalhos solicitada não só pelo Coordenador do Projecto, como ainda pela empresa Coordenadora de Fiscalização da obra, contratada pelo dono da obra, e que efectuava a ligação com este, recebendo a empreiteira instruções para avançar com a execução de tais trabalhos igualmente nas reuniões de obra, nas quais estava normalmente presente a representante do dono da obra e tendo-se vinculado no contrato de empreitada à execução de todos os trabalhos de alteração que lhe fossem ordenados pelo dono da obra, não se vislumbra como poderia a autora empreiteira recusar a realização dos aludidos trabalhos a mais ;
IV – ou seja, ainda que tendo presente a reiterada afirmação por parte do dono da obra de que não estaria na disposição de pagar nada mais para além do montante estipulado no contrato de empreitada, isto é, que não seriam aceites trabalhos a mais sem compensação por trabalhos a menos de igual valor, o posterior comportamento deste, sufragando as ordens ou directivas de execução, bem como a elencagem dos trabalhos que foram sendo executados, não lhe permitia um outro tipo de comportamento, senão o de concreta execução dos trabalhos suplementares, tendo ainda em consideração as concretas necessidades que foi sentido na execução do contratualizado ;
V – donde, aquela pretensão ou intenção inicial, reiteradamente afirmada pelo dono da obra, foi ultrapassada pelas concretas circunstâncias observadas na execução desta, bem como pelo seu comportamento posteriormente adoptado, perdendo acuidade ou pertinência ;
VI – por forma a implicar que aquela não aceitação ou autorização deva ser considerada vinculística perante a autora empreiteira, de forma a impossibilitá-la de, perante o dono da obra, reclamar o pagamento do valor dos trabalhos a mais realizados, e não compensados ;
VII – por outro lado, de forma idêntica, também não pode pertinentemente aludir-se a um qualquer acordo vinculístico, a enquadrar no mútuo consenso entre as partes (artº. 406º, do Cód. Civil), donde se deva depreender que apenas existe validação das obras a mais realizadas desde que compensáveis pela não realização de obras a menos contratualizadas ;
VIII – ou seja, decorre do quadro factual provado não ser possível concluir no sentido dos trabalhos a mais realizados, não compensados, deverem ser considerados como não aprovados nem aceites pelo dono da obra, no sentido de irresponsabilizá-lo pelo reclamado pagamento ;
IX – ademais, tal conclusão sempre resultaria do princípio geral de boa fé e da lealdade na execução ou cumprimento dos contratos – cf., o artº. 762º, do Cód. Civil -, pois, perante descrito comportamento do réu dono da obra, não era exigível que a autora empreiteira devesse concluir ou pressupor, apesar da posição de princípio sempre anteriormente ressalvada, que o mesmo negar-se-ia a pagar o valor decorrente da execução dos trabalhos a mais que lhe tinham sido ordenados e posteriormente aceites e validados, inclusive pelo mesmo réu, e a cuja execução se encontrava contratualmente obrigada ;
X – ou seja, perante aquele descrito comportamento do dono da obra, era legítimo à autora empreiteira ter criado a fundada e legítima convicção, juridicamente tutelada, de que, perante si, aquele assumiria o pagamento das alterações e trabalhos a mais concretamente necessários, requisitados e realizados, ainda que impossíveis de compensar com a não realização de trabalhos contratualizados de idêntico valor ;
XI – no âmbito da intervenção acessória provocada, fundante do chamamento de terceiro contra o qual a chamante ré entende ter acção de regresso, a decisão que vier a ser prolatada no processo em que ocorre o chamamento vincula o chamado no que aí se decidir a propósito das questões de que depende o invocado direito de regresso, ocorrendo, nessa parte, o efeito de caso julgado ;
XII – ocorrendo uma situação de enriquecimento do chamado interveniente, e consequente empobrecimento da chamante ré, fora da correcta ordenação jurídica dos bens, por que carente de causa justificativa, sempre será de reconhecer o invocado direito de regresso da chamante ré relativamente àquele chamado. Sumário elaborado pelo Relator – cf., nº. 7 do artº. 663º, do Cód. de Processo Civil