I- Verificada qualquer uma das situações descritas nas diversas alíneas do n.º 2 do art.º 186.º do CIRE, fica imediatamente estabelecido o juízo normativo de culpa do administrador, sem necessidade de demonstração do nexo causal entre a atuação ali elencada e a situação de insolvência ou o seu agravamento.
II- Para o preenchimento da previsão legal constante da alínea a) do n.º 2 do artigo 186.º do CIRE basta a não informação à AI do local e paradeiro de dois veículos pertencentes à devedora, que não foram objeto de entrega aquando da interpelação para esse efeito, desconhecendo-se o paradeiro dos mesmos.
III- Para o preenchimento da previsão legal constante da alínea d) do n.º 2 do artigo 186.º do CIRE basta que se apure que a devedora, através do seu gerente, procedeu à transferência de cinco viaturas para uma outra empresa do mesmo gerente, constituída poucos dias depois da instauração do processo de insolvência, transferências ocorridas já na pendência do próprio processo insolvencial, sem que qualquer informação fosse dada nos autos, de onde não resulta também espelhado o pagamento das aludidas viaturas, encontrando-se uma delas no local da residência do mencionando gerente.
IV- O preenchimento da previsão legal constante da alínea i) do n.º 2 do artigo 186.º do CIRE ocorre quando se verifica uma situação de incumprimento reiterado ao solicitado pela AI, o que se verifica desde logo quando o gerente da devedora não dá integral cumprimento ao solicitado por carta que lhe foi remetida, fornecendo de imediato os elementos necessários à AI; furtando-se aos contactos telefónicos efetuados com vista à concretização de visita ao imóvel da devedora; e, quando finalmente marcada a visita, não comparece, não atende o telefone nem devolve as chamadas que lhe foram feitas, não entregando também, nem informando a AI, do paradeiro de dois veículos da devedora, pese embora interpelado a esse efeito.
V- O preenchimento da previsão legal constante da alínea a) do n.º 3 do artigo 186.º do CIRE ocorre quando o gerente da devedora não cumpre o dever de apresentar a sociedade à insolvência, num cenário de insuficiência de liquidez, contraindo ainda, nesse quadro já deficitário, novos créditos, assim agravando a situação de insolvência.
VI- Tal ocorre quando vale contra o gerente da devedora a presunção (inilidível) de conhecimento dessa situação em face do incumprimento das dívidas referidas na al. g) do n.º 1 do art.º 20.º do mesmo diploma legal, sendo a omissão dessa apresentação causa adequada do agravamento da situação de insolvência.
VII- A tal não obsta o facto de o prazo de apresentação à insolvência, previsto no art. 18º nº 1 do CIRE, ter estado suspenso entre 07/04/2020 e 05/07/2023, nos termos do Decreto-Lei n.º 10-A/2020, de 13/03, da Lei 1-A/2020, de 19/03, da Lei 4-A/2020, de 06/04, e da Lei nº 31/2023, de 04/07.
VIII- Com efeito, terminada a suspensão daquele prazo a partir de 05/07/2023, o gerente da devedora, obrigado à apresentação à insolvência, por ter conhecimento de tal situação no decurso da suspensão do aludido prazo, como nos autos, em que o gerente da devedora era já sabedor e tinha essa obrigação desde junho de 2022, deveria então dar cumprimento a tal dever até ao dia 05/08/2023, o que não fez.
IX- Não avançando os Recorrentes quaisquer razões para restringir o período de inibição (este quase no seu limite mínimo) e valor de indemnização (esta relegada para liquidação posterior) fixados, que se afiguram justados (aos factos apurados nos autos) e não excessivos como se limitam aqueles a defender, impõe-se apenas a improcedência da apelação e confirmação da sentença recorrida. (sumário da autoria da Relatora)