I – O Habeas Corpus, providência extraordinária consagrada no artigo 31.º da Constituição da República Portuguesa e regulada nos artigos 222.º e 223.º do Código de Processo Penal, não constitui recurso de decisão judicial nem sucedâneo dos recursos ordinários; a sua cognição, de natureza sumária, formal e perfunctória, circunscreve-se à deteção de ilegalidades ostensivas, evidentes, patentes e grosseiras, diretamente verificáveis a partir dos factos documentados nos autos confrontados com a lei, sem que caiba, nesta sede, apreciar a pertinência ou a correção de decisões judiciais, nem sindicar nulidades ou irregularidades processuais.
II – A admissibilidade da providência depende da verificação cumulativa da legitimidade do requerente — que pode ser o próprio preso —, da competência do Supremo Tribunal de Justiça, reservada às situações de prisão, por contraposição a mera detenção, decorrente de título judicial, e da atualidade da ilegalidade invocada, aferida ao momento em que a providência é apreciada.
III – O fundamento da alínea c) do n.º 2 do artigo 222.º do Código de Processo Penal — manutenção da prisão para além dos prazos fixados pela lei ou por decisão judicial — abrange tanto a manutenção da privação da liberdade para além do termo da duração fixada para a pena, como os casos em que, por extinção da responsabilidade criminal, deva cessar a execução.
IV – As decisões de homologação do cômputo (liquidação) da pena, uma vez definidas e decididas por despacho judicial, são impugnáveis por via de recurso ordinário, não sendo sindicáveis em sede de habeas corpus por norma.
V – A imputação, no cômputo de uma pena única resultante de cúmulo jurídico, de período de privação da liberdade sofrido à ordem de outro processo — seja a título de prisão preventiva, para efeitos do artigo 80.º do Código Penal, seja a título de cumprimento efetivo de pena entretanto absorvida no cúmulo, para efeitos do artigo 78.º, n.º 1, do mesmo diploma — não opera ope legis nem é suscetível de apreciação originária em sede de habeas corpus, pressupondo prévia decisão judicial, proferida no processo de execução ou de liquidação, que a reconheça e concretize.
VI – Não sendo o período de cumprimento efetivo de pena invocado pelo requerente confirmado pela entidade prisional oficiada para o efeito, nem por qualquer outro elemento documentado nos autos, nem objeto de decisão judicial que o tenha reconhecido, a correspondente alegação não satisfaz o grau de certeza documental exigido para a procedência do habeas corpus, precisamente por não demonstrar uma ilegalidade ostensiva, evidente, patente ou grosseira, devendo o desacordo quanto ao cômputo da liquidação ser dirimido junto do tribunal da condenação, pelos mecanismos próprios de reclamação ou impugnação dessa decisão.
VII – O perdão e a amnistia estabelecidos pela Lei n.º 38-A/2023, de 2 de agosto, aplicam-se apenas a sanções penais relativas a factos praticados até às 0h00 de 19 de junho de 2023 por pessoas que, à data da prática do facto, tivessem entre 16 e 30 anos de idade, ficando excluído do respetivo âmbito de aplicação subjetivo o condenado que, nessa data, já tivesse ultrapassado aquele limite etário.
VIII – Na fase de execução da pena, é a condenação transitada em julgado e o nela decidido quanto à duração da prisão, bem como a subsequente liquidação, quando também transitada, que releva para efeitos de apreciação da (i)legalidade da privação da liberdade, não constituindo fundamento de habeas corpus a mera divergência de cálculo quanto a descontos ainda não reconhecidos por decisão judicial.