I. O habeas corpus em virtude de prisão ilegal (Art.ºs 31.º da Constituição da República Portuguesa [CRP], 5.º, n.º 4, da Convenção Europeia dos Direitos Humanos e 222.º e 223.º do Código de Processo Penal [CPP]) é uma providência excecional e expedita, regida pelo princípio da atualidade, que não constitui recurso de decisões judiciais. Destina-se a fazer cessar privações da liberdade manifestamente ilegais, isto é, uma ilegalidade evidente, diretamente verificável com base nos factos recolhidos na própria providência, sem apreciação da correção de decisões judiciais nem de nulidades ou irregularidades processuais, que só em recurso podem ser discutidas.
II. Os fundamentos da providência são os taxativamente enunciados no Art.º 222.º, n.º 2, do CPP. O fundamento da alínea b), prisão motivada por facto pelo qual a lei a não permite, abrange, entre outras situações, a prescrição da pena, cuja verificação determina a ilegalidade da prisão. A intervenção do Supremo Tribunal de Justiça tem, também aí, por limite a evidência: só a prescrição «manifesta e grosseira» pode ser conhecida em habeas corpus, mesmo sem prévio recurso.
III. A prescrição do procedimento criminal (Art.ºs 118.º a 121.º do Código Penal [CP]) e a prescrição da pena (Art.ºs 122.º a 126.º do CP) são institutos distintos, com prazos, termos iniciais e vicissitudes próprios: o trânsito em julgado da condenação encerra o primeiro e determina o início do segundo (Art.º 122.º, n.º 2, do CP). Transitada a condenação, a prescrição do procedimento criminal fica coberta pelo caso julgado e, estando o requerente em cumprimento de pena, não constitui fundamento de habeas corpus.
IV. Ainda que se admitisse conhecer da prescrição do procedimento criminal, a sua apreciação não revela ilegalidade evidente quando exige apurar as interrupções (Art.º 121.º, n.º 1, do CP) e as suspensões (Art.º 120.º, n.º 1, do CP) ocorridas e resolver a aplicação no tempo de causa de suspensão posterior à data dos factos (Art.º 2.º, n.º 4, do CP), como a prevista na alínea d) do n.º 1 do Art.º 120.º, para o arguido julgado na ausência, que a jurisprudência tem entendido não ter limite máximo. O limite do Art.º 121.º, n.º 3, do CP (prazo normal acrescido de metade, ressalvado o tempo de suspensão) não se confunde com o prazo de quinze anos contado desde o facto sem atender às interrupções.
V. O prazo de prescrição da pena de prisão é determinado pela pena concretamente aplicada, e não pela moldura abstrata do tipo, já refletida nela a atenuação especial do regime penal dos jovens: a pena igual ou superior a dois anos e inferior a cinco prescreve em dez anos (Art.º 122.º, n.º 1, alínea c), do CP). O prazo começa no dia do trânsito em julgado da decisão que aplicou a pena, interrompe-se com a execução e com a declaração de contumácia (Art.º 126.º, n.º 1), suspende-se nos casos do Art.º 125.º, n.º 1, e a prescrição ocorre sempre quando, ressalvado o tempo de suspensão, tiver decorrido o prazo normal acrescido de metade (Art.º 126.º, n.º 3).
VI. No julgamento na ausência, a existência e a data do trânsito em julgado dependem do modo como a sentença é notificada ao arguido. Se o arguido esteve ausente de toda a audiência (Art.º 333.º do CPP), a sentença deve ser-lhe notificada logo que seja detido ou se apresente voluntariamente, com informação expressa do direito de recorrer e do respetivo prazo, só então começando a correr o prazo de recurso; se compareceu à audiência e faltou apenas à leitura, considera-se notificado com a leitura feita perante o defensor (Art.º 373.º, n.º 3, do CPP). A notificação da sentença não se basta, assim, com a feita ao defensor (Art.º 113.º, n.º 10, do CPP).
VII. Não cabe ao habeas corpus rever a validade ou a data do trânsito em julgado certificado pelo tribunal da condenação. Para que a prisão seja manifestamente ilegal por prescrição da pena, é necessário que resulte, de modo evidente e com base nos factos da própria providência, que a decisão transitou em data anterior, que a notificação do defensor bastou para iniciar o prazo de recurso e que não ocorreu causa de suspensão ou de interrupção da prescrição da pena. Não se verificando estes requisitos, a questão deve ser suscitada pelos meios próprios perante o tribunal da condenação, com recurso da decisão que vier a ser proferida.
VIII. Não é inconstitucional a interpretação segundo a qual o trânsito em julgado da condenação proferida na ausência do arguido, e com ele o início do prazo de prescrição da pena, dependem da notificação pessoal da sentença. O Art.º 30.º, n.º 1, da CRP não é afetado, porque a pena tem duração certa e a sua prescrição é limitada no tempo. A prescrição das penas, fundada em razões de necessidade e de proporcionalidade (Art.º 18.º, n.º 2, da CRP), pressupõe a inércia do Estado na execução de pena que podia ser executada, o que não sucede antes do trânsito; e a notificação pessoal concretiza o direito de defesa e o direito ao recurso (Art.º 32.º, n.ºs 1 e 6, da CRP), em linha com a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (Colozza c. Itália; Sejdovic c. Itália) e com os Art.ºs 8.º e 9.º da Diretiva (UE) 2016/343. Fazer valer a notificação do defensor para o início do prazo equivaleria a fazer prescrever pena inexequível por falta de trânsito e a premiar a ausência.
IX. Em plano comparado, o prazo de prescrição da pena conta-se, em França (Art.ºs 133-2 a 133-4 do Code pénal) e em Itália (Art.º 172 do Codice penale), do momento em que a condenação se torna definitiva, e não da prolação da sentença, solução que coincide com a do direito português.
X. A reintegração do agente (Art.º 40.º, n.º 1, do CP) é prosseguida na fase de execução da pena e não constitui fundamento de habeas corpus.
XI. Certificado o trânsito em julgado em 17-11-2021 e executada a prisão em 04-08-2026, a pena de dois anos e seis meses de prisão não se encontra prescrita, por não ter decorrido sequer metade do prazo de dez anos. A providência é indeferida por falta de fundamento bastante (Art.º 223.º, n.º 4, alínea a), do CPP).
XII. A condenação prevista no Art.º 223.º, n.º 6, do CPP pressupõe que a petição seja manifestamente infundada, o que não ocorre quando, embora improcedente, a petição suscita com seriedade a questão da relação entre a notificação do arguido julgado na ausência, o trânsito em julgado e a prescrição da pena.