I. O crime de trato sucessivo não se mostra expressamente previsto no C.Penal, correspondendo a uma construção doutrinária e jurisprudencial, que, nos casos em que tal situação ocorre (assim como nos casos de crime exaurido, por exemplo), busca as suas raízes no disposto no artº 30 daquele diploma legal.
II. Face à tipologia dos crimes de abuso sexual de criança, que protegem a autodeterminação sexual, bem jurídico constitucionalmente protegido, o nº3 do mencionado artigo afastaria desde logo a possibilidade de entendimento da actuação do arguido como reconduzível ao vertido nesse artº 30 do
C. Penal.
III. A tutela do direito à liberdade sexual reconduz-se à protecção de um bem de carácter eminentemente pessoal, o que desde logo determinaria o não preenchimento de um dos requisitos previstos na lei, para o enquadramento da conduta criminosa em sede de crime continuado e/ou de trato sucessivo, como é entendimento consolidado e sereno deste STJ.
IV. Acrece que o elemento definidor, por excelência, que subjaz ao previsto no dito artº 30 do C.Penal, em que ocorre a unificação de condutas potencialmente violadoras, repetidamente, de um mesmo bem jurídico – que acaba por lhe circunscrever os seus limites e determinar a sua benevolência a nível sancionatório, se comparado com o tratamento dado pela lei ao concurso real de crimes – reside no entendimento de a acção criminosa se desenrolar no quadro de uma situação que é exterior ao agente, isto é, que lhe é exógena, porque não foi por si criada, mostrando-se possível concluir que, dessa parametrização circunstancial, era cada vez menos exigível que aquele se comportasse de acordo com o direito.
V. O presente concurso de penas abrange 49 crimes de abuso sexual de criança agravado, sendo os actos perpetrados através de cópula e coito oral, desenrolando-se os actos num período temporal de mais de 1 ano.
VI. Assim, do ponto de vista da gravidade do ilícito global, estamos perante uma pluralidade de factos homogéneos, quer quanto aos tipos penais em causa, quer quanto à gravidade de cada um deles, aferida pela medida das penas, quer, ainda, quanto ao período de tempo durante o qual se desenrolou a actividade ilícita do arguido. É, pois, muito elevada a gravidade do ilícito global praticado pelo recorrente.
VII. No que concerne à avaliação da personalidade do arguido, não pode deixar de considerar-se que todos os factos tiveram como motivação comum a satisfação do desejo sexual do arguido na pessoa da sua enteada e que, face à homogeneidade da conduta e à sua repetição, estamos perante uma tendência clara para a prática de crimes contra a autodeterminação sexual de criança, que remetem para um quadro degradante profundamente contrário às mais elementares regras e princípios na nossa sociedade. Temos assim de concluir que a personalidade do arguido teve um papel determinante na sua motivação para os crimes.
VIII. O critério para determinar o montante da reparação é, nestes casos, a equidade, como determina o art 496º n.º 3 do C.Civil.
IX. No caso presente, se atendermos ao facto de, no prazo de pouco mais de um ano, a vítima ter tido de suportar, por 49 vezes, actos contra a sua liberdade e autodeterminação sexual, tendo tido a sua primeira experiência sexual devido à conduta do arguido e sofrido actos de cópula e de coito oral, beijos na boca e noutras partes do corpo, sendo que todos estes actos acarretavam, para além do mais, uma situação de gestão de conflitos pessoais complexa, já que ocorriam sendo a mãe da vítima a companheira de vida do arguido, não se afigura em nada desproporcional o montante arbitrado que, aliás, equivale a cerca de um ano de salário do arguido.