I. As estipulações verbais posteriores a contrato-promessa sujeito a forma escrita são válidas, nos termos do artigo 221.º, n.º 2, do Código Civil, quando tenham natureza acessória, não lhes seja aplicável a razão determinante da forma legal e correspondam à vontade das partes.
II. Acordadas verbalmente, no âmbito de um contrato-promessa de compra e venda, a eliminação do pagamento de uma tranche intercalar do sinal e a prorrogação do prazo para a celebração do contrato definitivo, tais alterações contratuais revestem natureza meramente acessória, não incidindo sobre elementos essenciais do contrato, pelo que são válidas e eficazes, não obstante a falta de redução a escrito.
III. Tendo sido validamente eliminada, por acordo das partes, a obrigação de pagamento da segunda tranche do sinal, não pode a promitente vendedora invocar a falta desse pagamento como fundamento do incumprimento dos promitentes compradores, nem, com base nele, proceder validamente à resolução do contrato-promessa.
IV. A resolução do contrato-promessa pressupõe, em regra, o incumprimento definitivo da obrigação, não bastando a simples mora, podendo aquele resultar de interpelação admonitória, perda objetiva do interesse do credor, fixação de prazo essencial, impossibilidade de cumprimento ou recusa perentória de cumprir.
V. Não resultando do contrato-promessa ou da matéria de facto provada que o prazo para a celebração do contrato definitivo tivesse natureza de prazo essencial, o seu decurso apenas colocou a promitente vendedora em situação de mora, podendo os promitentes compradores converter essa mora em incumprimento definitivo mediante a fixação de um prazo suplementar razoável, nos termos do artigo 808.º, n.º 1, do Código Civil.
VI. A resolução ilícita do contrato-promessa não determina, por si só, a sua extinção, mas pode, em função das circunstâncias concretas que rodearam a declaração resolutiva, traduzir uma recusa definitiva, firme e categórica de cumprimento, suscetível de configurar incumprimento definitivo.
VII. Tendo a promitente vendedora, depois de comunicar aos promitentes compradores uma resolução infundada do contrato, passado a publicitar para venda a terceiros a habitação que lhes havia prometido vender e vindo posteriormente a concretizar essa venda, tal comportamento é objetivamente incompatível com a subsistência do contrato-promessa e traduz uma recusa firme e inequívoca de cumprir a obrigação de celebrar o contrato definitivo. (Sumário elaborado pelo Relator)