Processo 388/24.8T8AND.P1
I - A impugnação da decisão sobre a matéria de facto deve ser apreciada à luz dos meios de prova concretamente indicados pelo recorrente, impondo-se a alteração do facto provado quando a prova produzida revele, com suficiente segurança, uma realidade diversa daquela que foi acolhida na sentença.
II - Demonstrando a prova produzida que a acumulação de águas pluviais provocou a saturação das terras e o consequente aumento da pressão exercida sobre o muro, determinando a sua rutura e queda, e que só posteriormente, em consequência da perda do suporte proporcionado pelo muro, ocorreu o deslizamento da encosta, deve ser alterada a matéria de facto de modo a refletir essa sequência causal.
III - A cobertura contratual de “Aluimentos de Terra” que garante os danos ocorridos “em consequência direta” de fenómenos geológicos exógenos, designadamente aluimentos, deslizamentos, derrocadas ou afundamentos de terrenos, pressupõe que o fenómeno abrangido pela cobertura constitua causa direta do dano reclamado.
IV - Não se mostra preenchida tal cobertura quando, segundo a factualidade provada, não foi o deslizamento ou aluimento de terras que provocou a queda do muro, mas antes a pressão exercida pelas terras saturadas de água, tendo o deslizamento da encosta ocorrido posteriormente, na sequência da queda do muro e da consequente perda do suporte.
V - A mera circunstância de o sinistro ter ocorrido na sequência de precipitação intensa e de acumulação de águas no solo não permite, por si só, subsumir os danos à cobertura de “Aluimentos de Terra”, quando não se demonstre que um fenómeno geológico autonomamente caracterizado como aluimento ou deslizamento constituiu a causa direta dos danos.
VI - Ainda que se entendesse aplicável a cobertura de “Aluimentos de Terra”, estando contratualmente excluídos os danos em muros, estes apenas ficam abrangidos quando acompanhados da destruição total ou parcial da construção segura nos termos definidos na apólice, não bastando a própria destruição parcial do muro objeto da exclusão para afastar a mesma.
VII - A definição contratual de “destruição parcial”, segundo a qual esta ocorre quando o valor dos prejuízos indemnizáveis ultrapassa 5% do capital declarado para o edifício, deve ser interpretada em conjugação com a cláusula de exclusão, não podendo a exceção à exclusão ser entendida de modo a esvaziar de conteúdo a própria exclusão dos danos em muros.
VIII - A cobertura de “Privação de uso” que prevê o pagamento de despesas suportadas pelo segurado em consequência direta de sinistro coberto, designadamente com armazenamento, transporte ou exercício provisório da atividade noutro local, não confere uma indemnização autónoma pela mera impossibilidade ou redução da utilização de determinado espaço.
IX - Provando-se apenas que parte do parque de estacionamento ficou inutilizada e que funcionários e utentes passaram a estacionar na via pública, mas não se demonstrando que a segurada tenha suportado quaisquer despesas abrangidas pela concreta cobertura contratual, não se mostram preenchidos os pressupostos para a atribuição de indemnização por “privação de uso”.
X - A equidade não pode ser utilizada para ampliar o âmbito objetivo de uma cobertura de seguro nem para criar uma obrigação indemnizatória não compreendida no risco contratualmente assumido.
XI - Não se encontrando preenchida a cobertura de “Aluimentos de Terra” e não estando demonstradas despesas abrangidas pela cobertura de “Privação de uso”, deve ser julgada procedente a apelação e revogada a sentença na parte em que condenou a seguradora no pagamento dos montantes relativos à reconstrução do muro e à privação de uso.
