I - O art. 401.º, n.º 1, al. b), do CPP prevê que o assistente tem legitimidade para recorrer, desde que o recurso recaia sobre decisões que tenham sido contra si proferidas, reclamando-se, por isso, que ao recorrer, tenha um efetivo interesse em agir protegido na correção de determinado ato decisório.
II - Neste seguimento, quando o objeto recursivo versa única e diretamente sobre a medida concreta da pena – e nada mais –, o assistente terá de invocar um concreto e próprio interesse na interposição do recurso.
III - Assim sendo, em quadro de uma decisão que versa sobre os factos que contra a assistente foram praticados, cujo sentido não lhe é plenamente favorável, e tendo aquela adotado uma intervenção processual ativa, tem a mesma o direito a poder alegar nulidades, vícios e irregularidades que eventualmente se verifiquem e, bem assim, questionar a medida da pena fixada, sendo assim claro que é admissível o recurso por banda deste sujeito processual.
IV - Desponta o vício inserto no art. 410.º, n.º 2, al. b), do CPP quando se dá como provado que o arguido agiu sempre com o propósito de tirar a vida à assistente e que agiu de forma livre, deliberada e consciente movido por motivos vãos, tendo-se determinado a matar a assistente por estar convicto que a mesma tinha relações amorosas e sexuais com outros indivíduos e porque a mesma terminou o relacionamento amoroso que mantinha consigo, e em simultâneo se afirma como provado que o arguido atuou de forma deliberada, livre e consciente, com o propósito de desfigurar a assistente sua ex-companheira, bem sabendo que o instrumento que utilizou para o efeito, poderia atingir órgãos vitais da mesma, prevendo que a sua conduta poderia provocar-lhe a morte, conformando-se com tal possibilidade.
V - Tal tanto mais evidente se torna quando se entende, também, como não provado, que o arguido, ao arremessar ácido sulfúrico em direção ao rosto e tórax da assistente, atuou com o propósito de tirar a vida à sua ex-companheira e / ou representou a produção da morte da mesma como consequência necessária da sua conduta.
VI - O art. 426.º, n.º 1, do CPP determina o reenvio do processo para novo julgamento se, existindo os vícios da decisão, não for possível decidir a causa, sendo que nos termos do disposto no art. 431.º, n.º 1, al. a) do dito complexo legal, a correção do vício poderá ser efetuada pela instância de recurso, a qual modificará a matéria de facto, se do processo constarem todos os elementos de prova que lhe serviram de base.
VII - In casu, atendendo a que se trata de prova por inferência, em decorrência da aplicação das regras da experiência comum, não implicando, assim, a apreciação de elementos probatórios autónomos, nomeadamente de prova testemunhal e documental, é possível ao STJ proceder à modificação da decisão e consequente decisão da causa, considerando os normativos conjugados dos arts. 410.º, n.º 2, 426.º, n.º 1, 432.º, n.º 1, al. c) e 434.º do CPP.