Processo 1741/21.4T9GMR.G2
I. O direito de queixa pelo crime de introdução em lugar vedado ao público, previsto nos artigos 191º do Código Penal, pertence ao titular do interesse especialmente protegido pela incriminação, nos termos dos artigos 113.º, n.º 1, do Código Penal e 68.º, n.º 1, alínea a) do Código de Processo Penal
II. Configurando-se os queixosos como proprietários da faixa terreno cuja delimitação foi transposta pela arguida contra a sua vontade e sem o seu consentimento, são aqueles os titulares do interesse directamente lesado e, consequentemente, do direito de queixa.
III. A decisão que admitiu os ofendidos a intervir nos autos na qualidade de assistentes, uma vez transitada em julgado, adquire, após a dedução da acusação, força de caso julgado formal quanto à questão da respectiva legitimidade, não podendo esta ser novamente discutida como se não tivesse sido objecto de apreciação judicial.
IV. A nulidade da sentença por falta de fundamentação, prevista nos artigos 374.º, n.º 2, e 379.º, n.º 1, alínea a), do Código de Processo Penal, não se confunde com a mera discordância da recorrente relativamente à apreciação e à valoração da prova efectuadas pelo tribunal.
V. A imprecisão na indicação do dia e da hora da prática dos factos não viola, por si só, os direitos de defesa e do contraditório, desde que a descrição factual delimite suficientemente o período temporal das condutas imputadas, permitindo à arguida preparar uma defesa efectiva. A suficiência dessa delimitação deve ser apreciada casuisticamente, considerando a natureza dos factos e as circunstâncias do processo, designadamente quando a defesa assenta essencialmente na contestação da titularidade do terreno pelos assistentes, assumindo então a concretização exacta das datas carácter secundário.
VI. A exclusão da punibilidade da ofensa à memória de pessoa falecida, por aplicação do artigo 180.º, n.º 2, alíneas a) e b), ex vi artigo 185.º, n.º 2, alínea a), do Código Penal, pressupõe a verificação dos respectivos requisitos legais, designadamente a prossecução de interesses legítimos e a prova da verdade da imputação ou a existência de fundamento sério para, de boa-fé, a reputar verdadeira, não bastando, para esse efeito, a invocação de um conflito patrimonial subjacente.

