Processo 2905/23.1BELSB-A.CS1
I. A restrição do direito à tutela jurisdicional efetiva e do direito à prova (artigo 20.º, n.º 1, da Constituição) decorrente da classificação de segurança de informação administrativa não pode resultar no sacrifício automático e total de um destes direitos em favor do interesse da segurança nacional (artigos 9.º, alínea b), 268.º, n.º 2, e 273.º da Constituição), impondo antes o princípio da concordância prática e o critério da proporcionalidade (artigo 18.º, n.º 2, da Constituição) a procura de soluções de compatibilização que preservem o núcleo essencial de ambos os valores em confronto;
II. A recusa de produção de prova testemunhal não configura erro de julgamento, nem compromete o direito à prova consagrado no artigo 20.º da Constituição, quando a improcedência da pretensão cautelar não assenta na falta de demonstração de factos concretos e controvertidos alegados pela parte, mas na insuficiência da própria alegação factual constante dos articulados, que a prova testemunhal não pode suprir;
III. Não incorre em nulidade por omissão de pronúncia, nos termos do artigo 615.º, n.º 1, alínea d), do CPC, a sentença que, tendo conhecido de determinado vício invalidante do ato administrativo, considera prejudicado o conhecimento de outro vício por remissão para a solução dada ao primeiro;
IV. No âmbito da impugnação da decisão sobre a matéria de facto em processo cautelar, não podem ser aditados ao probatório factos não alegados pela parte; do mesmo modo, não constituem factos suscetíveis de aditamento os juízos conclusivos e/ou de valor;
V. Não são imediatamente operativas, para efeitos dos artigos 73.º, n.º 1, e 130.º, n.º 1, do CPTA, as normas regulamentares que se limitam a fixar os critérios e pressupostos de facto de que dependerá o exercício futuro e eventual de um poder de decisão administrativa ulterior – quanto ao an, ao quid e ao quando de atuação –, não produzindo, por si só e independentemente de ato de aplicação, qualquer efeito lesivo automático na esfera jurídica dos seus destinatários;
VI. O direito de audiência dos interessados, previsto no artigo 121.º do CPA para a prática de atos administrativos que afetem direta e imediatamente a sua esfera jurídica, não pode ser dispensado com fundamento na urgência da decisão, no risco de comprometimento da sua execução ou em prévia pronúncia dos interessados, nos termos do artigo 124.º, n.º 1, do CPA, quando tais fundamentos não se mostrem concretamente demonstrados;
VII. A classificação de segurança da informação subjacente ao ato administrativo, ao abrigo do artigo 268.º, n.º 2, da Constituição, não legitima a supressão total e automática do direito de audiência prévia dos interessados, impondo antes à Administração o ónus de demonstrar a impossibilidade de conciliar a proteção da informação reservada com o exercício, ainda que limitado, do direito de participação, designadamente através da comunicação de versão expurgada dos elementos sensíveis;
VIII. A omissão da publicitação do início de procedimento regulamentar (artigo 98.º, n.º 1, do CPA) e da elaboração de nota justificativa (artigo 99.º do CPA) constitui vício procedimental determinante da invalidade do regulamento, insuscetível de ser afastado pela mera invocação genérica de limites decorrentes do direito de acesso a informação classificada, sem demonstração da incompatibilidade entre esses limites e o cumprimento das garantias procedimentais legalmente exigidas;
IX. Não viola o princípio da imparcialidade, na sua dimensão positiva, a opção metodológica da Administração de circunscrever a análise comparativa de direito estrangeiro a uma amostra representativa de ordenamentos jurídicos, sem que se demonstre que a seleção foi orientada, de forma consciente e direcionada, à confirmação de um resultado pré-determinado;
X. Não padece de desproporcionalidade, nas suas três dimensões (adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito), o regime que define critérios objetivos e graduados de qualificação de risco à luz de instrumentos de avaliação de risco da União Europeia e que, podendo optar pela medida mais gravosa, adota antes a menos lesiva, associando-a a um faseamento temporal proporcionado à criticidade dos ativos de rede em causa;
XI. Não viola o princípio da igualdade o critério de qualificação de risco que, entre vários fatores alternativos, atende à conexão do fornecedor a Estado terceiro à União Europeia, à Organização do Tratado do Atlântico Norte ou à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, quando tal critério não seja o único elemento de diferenciação e a norma seja apta, em abstrato, a abranger uma pluralidade indeterminada de operadores económicos;
XII. O artigo 62.º, n.º 5, da Lei das Comunicações Eletrónicas, ao habilitar a Comissão de Avaliação de Segurança a determinar a exclusão, a restrição ou a cessação de utilização de equipamentos ou serviços de comunicações eletrónicas com fundamento em avaliação de segurança justificada e fundamentada em critérios objetivos, dispõe de densidade normativa suficiente para satisfazer as exigências do princípio da reserva de lei, formal e material, consagrado nos artigos 18.º e 165.º, n.º 1, alínea b), da Constituição, quanto às restrições que dele resultam para os direitos de propriedade privada e de iniciativa económica;
XIII. Não se mostrando a matéria da segurança das redes e serviços de comunicações eletrónicas objeto de harmonização exaustiva pelo Código Europeu das Comunicações Eletrónicas, mantém-se aplicável, para aferição da conformidade de medidas nacionais restritivas com a livre circulação de mercadorias e a liberdade de estabelecimento, o crivo de controlo previsto nos artigos 36.º e 52.º, n.º 1, do TFUE, incumbindo ao Estado-Membro que invoca a exceção de segurança pública o ónus de demonstrar a apreciação específica e individualizada dos riscos que fundamentou a qualificação de um operador determinado como fornecedor de alto risco, não bastando, para o efeito, a compatibilidade abstrata do regime regulamentar com o Direito da União Europeia;
XIV. Não é aplicável o regime de notificação prévia de regras técnicas previsto no Decreto-Lei n.º 30/2020, de 29 de junho, a atos que se insiram no âmbito da regulamentação da União Europeia em matéria de comunicações eletrónicas, atualmente reconduzida ao Código Europeu das Comunicações Eletrónicas, por força da exclusão prevista no artigo 2.º, alínea c), daquele diploma.