I - As declarações do contraente público sobre a interpretação, validade e execução do contrato devem ser entendidas como meras declarações negociais, solução acolhida do art.º 307.º, n.º 1 do CCP, nos termos do qual “as declarações do contraente público sobre interpretação e validade do contrato ou sobre a sua execução são meras declarações negociais, pelo que, na falta de acordo do cocontratante, o contraente público apenas pode obter os efeitos pretendidos através do recurso à ação administrativa”, só não sendo assim nas situações excecionadas no n.º 2 daquele mesmo art.º 307.º, revestindo, nesses específicos casos, as declarações do contraente público sobre a execução do contrato, a natureza de ato administrativo.
II - Só revestem a natureza de atos administrativos as declarações contratuais proferidas no âmbito daqueles poderes de autoridade do contraente público que lhe foram confiados para prossecução do interesse público subjacente ao contrato, é o que sucede na situação dos autos, na medida em que está em causa a aplicação, por parte do contraente público, dono da obra, de uma sanção pecuniária fundada em incumprimento contratual do cocontratante, empreiteiro.
III - Não obstante o Código dos Contratos Públicos conferira, por efeito do disposto no n.º 2 do seu art.º 307.º, natureza de ato administrativo às declarações do contraente público sobre a execução do contrato que se traduzam i) em ordens, diretivas ou instruções no exercício dos poderes de direção e de fiscalização; ii) na modificação unilateral das cláusulas respeitantes ao conteúdo e ao modo de execução das prestações previstas no contrato por razões de interesse público; iii) na aplicação das sanções previstas para a inexecução do contrato; iv) na resolução unilateral do contrato; vi) na cessão da posição contratual do cocontratante, a formação dos atos administrativos emitidos no exercício daqueles poderes do contraente público não está sujeita ao regime da marcha do procedimento estabelecido pelo Código do Procedimento Administrativo, exceto no que respeita à aplicação de sanções contratuais através de ato administrativo, a qual está sujeita a audiência prévia do cocontratante, nos termos previstos no Código do Procedimento Administrativo, tal como expressamente estatuído no art.º 308.º, n.º s 1 e 2 do CCP.
IV - O direito de audiência prévia dos interessados não se esgota no exercício do direito a formal, de mera intervenção procedimental, ele exige que seja dada aos interessados a oportunidade para se pronunciarem sobre o conteúdo provável da decisão, de modo a poderem aportar, na sua pronúncia em sede de audiência prévia, os argumentos que invertam ou alterem o sentido projetado da decisão e que na sequência dessa sua pronúncia sejam ponderados, de modo efetivo, os respetivos argumentos (de facto e de direito), acolhendo-os ou não, só assim se concretizando a verdadeira participação e conformação das decisões por parte dos seus destinatários, o que traduz a dimensão material do direito de audiência prévia.
V - Num contexto, como o presente, de aplicação de uma sanção contratual por atraso na conclusão da execução da empreitada, impõe-se ao contraente público, dono da obra, que pondere e tome posição circunstanciada, de facto e de direito, quanto à alegação feita pelo cocontratante privado, empreiteiro, em sede de audiência prévia, no sentido da verificação de circunstâncias consubstanciadoras de causa de força maior que terão conduzido ao verificado atraso de 15 dias na conclusão da obra; não o fazendo, a decisão que aplicou a multa contratual padece de vício de preterição de audiência prévia, conducente à sua anulabilidade nos termos do art.º 163.º, n.º 1 do CPA.
VI - Constatada a violação do direito de audiência prévia, conducente à anulabilidade do ato nos termos do art.º 163.º, n.º 1 do CPA, não é de afastar o respetivo efeito anulatório do verificado vício nos termos do nº 5 do art.º 163.º , por não ser de reconhecer que o conteúdo do ato não podia ser outro ou que existisse apenas uma solução como legalmente possível, na exata medida em que a ponderação dos argumentos aduzidos pelo empreiteiro em sede de audiência prévia eram hábeis a influir sobre o juízo de imputabilidade (ou de não imputabilidade) quanto ao atraso verificado na conclusão da obra, que o art.º 403.º, n.º 1 do CCP convoca e exige.* * Sumário elaborado pela relatora (art. 663º, n.º 7 do Cód. Proc. Civil)