I - A afirmação de que a detenção, sujeição a 1.º interrogatório e aplicação de medidas de coação - ainda que não privativas da liberdade-, constituem um marco processual que determina a cessação da atividade criminosa e determina que a atividade subsequente, praticada em moldes idênticos, corresponde ao formular de uma nova resolução criminosa, carece de enquadramento vertido na matéria de facto provada nos autos.
II - Para fundamentar a condenação em «dois crimes autónomos, será necessária a prova de uma nova decisão de vontade, um novo dolo, ou seja, deverá existir uma correspondência entre a conclusão do tribunal e o substrato factual assente nos autos.
III - Porém, no caso sub judice, toda a factualidade está orientada no sentido de um desenvolvimento contínuo da atividade de tráfico, com um mesmo intuito, como correspondendo ao mesmo desígnio, i. e. resolução criminosa única.
IV - A circunstância de, mesmo após serem abordados pelas autoridades judiciárias, e sujeitos a medidas de coação não privativas da liberdade, continuarem / prosseguirem os arguidos a dedicar-se à atividade de tráfico de estupefacientes, deve ser valorada em sede de avaliação da ilicitude do facto, e não como tendo um efeito automático na delimitação da resolução criminosa, para efeitos de delimitação da unidade vs. concurso de crimes.
V - A continuação da atividade criminosa após a determinação de aplicação de medidas de coação, constitui um fator de ponderação para efeitos de avaliação da ilicitude do facto, o que agrava a ilicitude do facto.
VI - O tribunal errou ao determinar a alteração da qualificação jurídica sem respaldo na factualidade assente, pelo que, consequentemente, impõe-se a revogação da decisão recorrida e, em correção da mesma, condenar o arguido pela prática de um crime de tráfico de estupefacientes, p. e p. nos termos do artigo 21.º do DL 15/93, de 22-01.
VII - O tipo fundamental do crime de tráfico de estupefacientes é um crime de perigo abstrato, pois considera-se preenchido o tipo com a realização de qualquer das condutas aptas à lesão dos bens jurídicos protegidos, independentemente das respetivas consequências, que protege múltiplos bens jurídicos, desde bens jurídicos pessoais como a vida e a saúde física e mental, até à tranquilidade e à saúde públicas, e não é necessário que se produza um dano concreto para algum dos bens jurídicos protegidos pela incriminação, bastando a perigosidade da conduta.
VIII - A aplicação do crime de tráfico de menor gravidade aos casos concretos está relacionada com uma diminuição considerável da ilicitude do facto. Da análise da matéria de facto provada, não se encontram, vertidas circunstâncias que, numa avaliação global do facto, permitam sustentar a diminuição considerável da ilicitude que, por sua vez, determine o afastamento do caso do âmbito de aplicação do tipo-regra da norma incriminadora do artigo 21.º do DL n.º 15/93, de 22-01.
IX - Ao elemento prevenção, no sentido de prevenção geral positiva ou de integração, vai-se buscar o objetivo de tutela dos bens jurídicos, erigido como finalidade primeira da aplicação de qualquer pena, mas sem esquecer também a vertente da prevenção especial ou de socialização, ou, segundo os termos legais: a reintegração do agente na sociedade (artigo 40.º, n.º 1, do Código Penal). Por sua vez, a culpa opera enquanto um limite às exigências de prevenção geral, impedindo a instrumentalização do agente.