I - As normas que estabelecem os prazos de procedimento prescricional, embora não confiram um direito subjectivo dos autores dos crimes a serem perseguidos após o decurso de um certo lapso de tempo, reflectem a verificação de uma maior ou menor necessidade de punir e uma intensificação da dignidade punitiva, assumindo o pressuposto de que um Estado de Direito deve alicerçar-se na racionalidade do poder punitivo, o que significa que este deverá estar sujeito a um limite temporal para o seu exercício.
II - O fundamento da prescrição do procedimento criminal radica, antes de mais, em razões de ordem substantiva, assentes na progressiva diminuição do juízo de culpa e das exigências de prevenção especial e de prevenção geral, estas últimas associadas à mitigação das exigências de estabilização contrafáctica das expectativas comunitárias, pelo decurso do tempo sobre a prática do facto, deste modo se justificando a não intervenção do Direito Penal.
III - O instituto da prescrição do procedimento criminal tem assim, sobretudo, uma natureza material e substantiva, segundo uma teoria jurídico-material da prescrição, que assenta no pressuposto de que o exercício do jus puniendi estadual não goza de uma presunção omni tempori, por razões ligadas, sobretudo, aos fins das penas.
IV - O crime de falsas declarações é um crime de mera atividade quanto à forma de consumação e ao objecto de ação, este consuma-se com a declaração ou atestação falsa à autoridade pública, ou a funcionário no exercício das suas funções, da identidade, estado ou outra qualidade a que a lei atribua efeitos jurídicos, próprios ou alheios eventualmente a utilidade preventiva geral e preventiva especial das penas.
V - Verifica-se uma afronta ao princípio do acusatório, quando o MP excluiu do objecto do processo os factos relacionados com o crime de falsas declarações praticado em 26-08-2015, ao declarar extinto, por prescrição, o procedimento criminal quanto a tais factos, nos termos do art- 118.º, n.º 1, al. c) do CP, determinando o arquivamento do inquérito, por inadmissibilidade legal do procedimento, nos termos do art. 277.º, n.º 1 do CPP e o Tribunal a quo veio, em julgamento, trazer novamente à jurisdição tais factos, redefinindo e alargando o objecto do processo.
VI - O princípio da completude fundamentação, significa que o seu conteúdo deve exprimir a justificação do que é decidido, desde que todas as questões suscitadas perante o tribunal – e que sejam objecto de tratamento jurisdicional – sejam reflectidas na decisão. Está em causa a exigência de tratamento completo e esgotante dos aspetos fundamentais tratados na decisão quanto à matéria de facto e às questões jurídicas, que têm de ser justificados.
VII - Conforme tem sido sufragado por este STJ, por “questões que devesse apreciar”, nos termos da al. c) do n.º 1 do art. 379.º do CP, deve entender-se o concreto problema ou questão, de facto ou de direito, a decidir, e já não também, os motivos, os argumentos, as doutrinas, as razões e os pontos de vista invocados pelos sujeitos processuais, razão pela qual só em relação aos concretos problemas se pode verificar uma eventual omissão de pronúncia.
VIII - O regime de fundamentação da alteração da qualificação jurídica encontra-se submetido a diferentes exigências, consoante estejamos diante de dois momentos processuais distintos. No primeiro momento, o despacho de notificação da alteração da qualificação jurídica dos factos descritos na acusação, que encontra cabimento no art. 358.º, n.os 1 e 3 do CPP, deve encontrar-se devidamente fundamentado, nos termos do art. 97.º, n.º 5, do CPP. O mesmo encontra-se submetido às seguintes premissas, segundo o acórdão de punição no Tribunal de Justiça proferido em 19-12-2019, Proc. n.º 111/12.0PTLRS.L1.S1, “a) a comunicação é similar à que consta de uma acusação ou pronúncia que se basta com a indicação da disposição legal aplicável; b) o objectivo é apenas sinalizar da existência da possibilidade de outro enquadramento jurídico; c) não consubstancia qualquer juízo definitivo do tribunal (…) Motiva-se porque se faz a comunicação – explanando que o colectivo entende que o enquadramento jurídico é diverso do propugnado pelo MP na peça acusatória – e efectiva-se a comunicação, indicando precisamente as normas legais onde se encontram os crimes e sua punição ”.
IX - O momento da fundamentação da decisão final, da sentença, situa-se a jusante do momento da fundamentação do despacho de comunicação da alteração da qualificação jurídica, estando, então, o primeiro submetido ao escrutínio mais exigente da fundamentação da sentença, nos termos do art. 374.º, n.º 2, do CPP. Segundo o mesmo acórdão já acima referido deste STJ, será no momento da decisão final, na sentença, que o tribunal explicará a razão do enquadramento jurídico, densificando de Direito, sendo que a fundamentação jurídica incide sobre a exigência de exposição dos critérios interpretativos nos quais se respalda o juiz para aplicar a lei.
X - Deste modo, apesar de o Tribunal a quo ter concedido ao arguido a possibilidade de este apresentar a sua defesa, nos termos dos n.os 1 e 3 do art. 358.º do CPP, certo é que, como já vimos, realizou a referida alteração da qualificação jurídica sob o pressuposto – equivocado – de que o arguido não tinha apresentado a sua defesa, e sem que motivasse a sua decisão conferindo as razões jurídicas e os fundamentos de direito para realizar a referida alteração da qualificação jurídica, incorrendo, por isso, na nulidade por falta de fundamentação nos termos da al. a), 1.ª parte, do n.º 1 do art. 379.º do CPP.