I - Nos termos do art. 400.º, n.º 2, do CPP, “Sem prejuízo do disposto nos arts. 427.º e 432.º, o recurso da parte da sentença relativa à indemnização civil só é admissível desde que o valor do pedido seja superior à alçada do tribunal recorrido e a decisão impugnada seja desfavorável para o recorrente em valor superior a metade desta alçada”.
II - No caso, o valor do pedido foi de € 20 000,00 a título de danos não patrimoniais e, quanto aos danos patrimoniais, as quantias que viessem a ser liquidadas em execução de sentença para ressarcimento dos referidos danos. O valor das indemnizações arbitradas pelo Tribunal da Relação a título de danos não patrimoniais, no montante de € 6 000,00 e € 1 000,00 é desfavorável para os recorrentes em valor inferior a metade da alçada deste tribunal (que se situa nos € 30 000,00, nos termos do art. 44.º, n.º 1, da Lei n.º 62/2013, de 26-08).
III - O que conduz à inadmissibilidade do recurso nos presentes autos, nos termos do preceituado no art. 629.º, n.º 1, do CPC e art. 400.º, n.º 2, do CPP.
IV - No âmbito dos seus poderes de cognição, não está vedado a este STJ a apreciação da questão que versa sobre se ao Tribunal da Relação se impunha a rejeição do recurso, nos termos do art. 420.º, n.º 1, do CPP, pelo invocado incumprimento do estipulado no art. 412.º do CPP, quando estejamos perante um recurso em matéria de facto, porquanto, pese embora esta seja uma questão que se repercute na decisão sobre a matéria de facto, é uma questão de direito - (nota 3).
V - Não lhe cabendo já perscrutar o como dessa concreta análise realizada pelo Tribunal da Relação, sob pena de incursão numa inadmissível fiscalização da matéria de facto, que apenas cabe ao Tribunal da Relação (nota 4).
VI - Quando opte pela impugnação ampla da matéria de facto, deve o recorrente indicar os concretos pontos precisos, bem como as concretas provas que impunham decisão diversa da recorrida, individualizando os factos e especificando para cada núcleo factual as provas que deviam conduzir a uma diferente fixação factual, sob pena de ficar, assim, comprometido o ajuizamento autónomo e próprio do Tribunal da Relação acerca dos factos impugnados - (nota 8).
VII - Do art. 412.º do CPP não se extrai um ónus de impugnação atulhado por espartilhos formalistas, mas dele decorre um dever de enunciação, sobretudo material, com vista à inteligibilidade dos concretos pontos de facto e meios de prova que impunham decisão diversa. Esta tem sido igualmente a linha do TC.
VIII - A impugnação da matéria de facto não pode corresponder a uma impugnação genérica, devendo extrair-se lato sensu das conclusões do recurso os concretos pontos de factos que o recorrente considerou incorretamente provados. Isto conduz à conclusão de que a intervenção do Tribunal da Relação em matéria de facto funciona como um julgamento com um objeto reduzido e limitado, “de remédio para deficiências factuais circunscritas, confinadamente a pontos específicos, concretamente indicados,” - (nota 13).
IX - O Tribunal da Relação encontra-se legitimado a analisar individual e cabalmente a prova concretamente indicada pelo recorrente, quando relacionada com os concretos pontos de facto indicados pelo recorrente, nos termos do art. 412.º, n.º 3, als. a) e b), do CPP, de acordo com o princípio da livre apreciação da prova, ou seja, segundo as regras da experiência comum e a livre convicção, previsto no art. 127.º do CPP.
X - A intervenção do Tribunal da Relação em matéria de facto implica uma acção localizada, e orientada para corrigir uma anomalia ou anular um erro específico.
XI - Sendo o facto concretamente impugnado pelo assistente no seu recurso para o Tribunal da Relação (39.ª conclusão), a Relação encontrava-se legitimada, nos seus poderes de cognição, a alterar este facto.
XII - Dos poderes de cognição do Tribunal da Relação em matéria de facto, nos termos do art. 428.º do CPP, extrai-se a exigência de que sobre este tribunal recai um dever de fundamentação da decisão sobre a matéria de facto idêntico ao do tribunal de 1.ª instância, o que se vislumbra da leitura da decisão recorrida, que faz uma análise aturada dos motivos de facto e de direito que sustentaram a decisão proferida, com indicação das concretas provas que serviram para formar a convicção do tribunal, e o correspondente exame crítico das mesmas, de forma detalhada.
XIII - Nos termos do art. 130.º, n.º 1, do CPP, o que configura uma proibição de prova é a reprodução de vozes ou rumores públicos como depoimento.
XIV - Compulsado todo o teor da fundamentação do tribunal a quo, não se vislumbra, em momento algum, a referência a qualquer depoimento que consista na reprodução de vozes ou rumores públicos. A isto acresce que não é possível encontrar na fundamentação do tribunal recorrido a utilização da convicção do assistente para fundamentar o valor patrimonial dos bens imóveis vendidos, contrariamente ao invocado pelos arguidos.
XV - Na verdade, o juízo realizado pelo tribunal a quo assentou no recurso a um facto notório, não carecendo de prova nem de alegação (cf. art. 412.º do CPC, aplicável ex vi art. 4.º do CPP).
XVI - A violação do princípio in dubio pro reo apresenta numa dupla faceta, uma vez que poderá reconduzir-se a uma verdadeira questão-de-direito, concernente à apreciação e valoração da prova, mas também a uma autêntica questão-de-facto, quando diga respeito a uma mera discordância da decisão sobre a matéria de facto sendo que os poderes cognitivos deste STJ a propósito do princípio in dubio pro reo apenas abrangem as situações em que este se coloca enquanto uma concreta questão de direito - (nota 38).
XVII - A violação do aludido princípio exige que seja possível extrair do texto da decisão que o tribunal tenha exprimido, com um mínimo de clareza, que se deparou com um estado de dúvida quanto aos factos que devia dar por provados ou não provados.
XVIII - No caso, decorre expressamente do texto da decisão recorrida que o tribunal a quo não teve quaisquer dúvidas quanto à matéria de facto, o que diz expressamente: “Mas, ao contrário do tribunal recorrido, não tem este tribunal dúvidas em julgar verificada a prática dos factos descritos na pronúncia e nessa conformidade revogar o acórdão recorrido, retirando de tal revogação as demais consequências, uma vez que dispõe também de informação respeitante às circunstâncias pessoais dos arguidos que o viabilizam”.
XIX - Por conseguinte, se na fundamentação do acórdão elaborado pelo tribunal a quo este não invoca qualquer dúvida insanável, ou, ao invés, se a motivação da matéria de facto denuncia uma tomada de posição clara e inequívoca relativamente aos factos, com indicação clara e coerente das razões que fundaram a convicção do tribunal, não há lugar à aplicação do princípio in dubio pro reo.
XX - No art. 169.º do CPP, segundo o qual “Consideram-se provados os factos materiais constantes de documento autêntico ou autenticado enquanto a autenticidade do documento ou a veracidade do seu conteúdo não forem fundadamente postas em causa”.
XXI - No processo penal português todos os meios de prova se encontram adstritos ao comando da livre apreciação da prova pelo julgador, que se extrai do postulado de autossuficiência do processo penal, norteado pela livre apreciação da prova, que rege um processo penal como o português, de estrutura acusatória.
XXII - É possível observar que o juízo de dúvida quanto à veracidade do conteúdo da procuração outorgada percorreu todo o processo cognitivo do julgador na formação da sua convicção e posterior decisão
XXIII - Pode extrair-se da factualidade dada como provada que os arguidos, ao levarem, em conjugação de esforços, o assistente a assinar a procuração que conferia plenos poderes à arguida para vender os referidos bens imóveis, tinham verdadeira intenção de obter um enriquecimento ilegítimo, através do ardil que astuciosamente geraram, razão pela qual o tipo subjetivo de burla se encontra totalmente verificado.
XXIV - Resulta, assim, que se mostram verificados todos os elementos típicos do crime de burla qualificada, p. e p. pelos arts. 217.º e 218.º, n.º 2, al. a), com referência ao art. 202.º, al. b), todos do CP, e a verificação de um prejuízo patrimonial motivado por engano astuciosamente provocado (por meio de actos concludentes) pelos arguidos, com intenção de obterem para si ou para terceiro enriquecimento ilegítimo.
XXV - Tendo os arguidos meios processuais disponíveis para fazer regressar à esfera jurídica do assistente os bens imóveis transacionados, a condição imposta pelo Tribunal da Relação nos presentes autos como condição para a suspensão da execução das penas de prisão aplicáveis não se mostra impossível de cumprir pelos arguidos.
XXVI - Sendo os arguidos AA e BB sócios-gerentes da sociedade compradora dos imóveis, possuem poderes de representação e vinculação dessa mesma sociedade, detendo assim a possibilidade de assegurar o cumprimento da condição fixada pelo tribunal a quo.
XXVII - A suspensão da execução da pena de prisão só permite realizar de forma adequada e suficiente as finalidades da punição, se a ela, podermos associar a reparação dos danos provocados ao lesado - (nota 62) -, atenta a “sua função de adjuvante da realização das finalidades da punição” - (nota 63).
XXVIII - A isto tudo acresce que o art. 51.º, n.º 2, do CP, ao estatuir que “Os deveres impostos não podem em caso algum representar para o condenado obrigações cujo cumprimento não seja razoavelmente de lhe exigir”, tal impõe-se como limites constitucionais dos deveres, sob o pressuposto de que os deveres não podem violar os direitos fundamentais do condenado - (nota 64), de cuja proteção não goza a condição imposta pelo Tribunal da Relação nos presentes autos, razão pela qual se julga também improcedente igualmente esta alegação dos arguidos.