I - O STJ não pode censurar o juízo perpetrado pela Relação, nem reequacionar, no domínio da prova sujeita a livre apreciação, a respetiva valoração, estando apenas ao seu alcance verificar se a Relação ao usar os seus poderes “agiu dentro dos limites traçados pela lei para os exercer”, ou seja, a regularidade, em termos adjetivos, do uso dos seus poderes/deveres de reapreciação ou a violação de normas de direito probatório material, designadamente as que disciplinam a repartição do ónus da prova, atendendo aos limites que lhe são impostos pelo art. 662.º do CPC, salvas as exceções a que se refere o art. 674.º, n.º 3, ex vi art. 682.º, n.º 2, ambos do CPC.
II - Não se pode concluir que a Relação, ao formar diferente convicção das provas produzidas, ultrapassou os poderes que o art. 662.º do CPC, lhe confere, o que se impõe à Relação é que reavalie a prova produzida, excetuados os casos de prova vinculada, no domínio da livre apreciação da prova, para formar a sua própria convicção, de forma autónoma relativamente à formada em 1.ª instância e podendo ou não, consoante a sua própria convicção, coincidir com a da 1.ª instância, sendo esta a finalidade e o objetivo da reapreciação da matéria de facto pela Relação, como resulta do teor do art. 662.º do CPC.
III - A regra relativa ao ónus da prova a que se refere o art. 342.º do CC, nada tem que ver com o julgamento de facto, que se deve nortear com respeito pelos comandos ínsitos no art. 607.º, n.os 4 e 5, do CPC, mas tão só e apenas com a questão de direito que consiste em determinar em que sentido deve o tribunal decidir, no caso de não se provarem determinados factos, consoante se esteja perante factos constitutivos, impeditivos, modificativos ou extintivos do direito alegado/invocado.
IV - O STJ só pode sindicar o uso de presunções judiciais por parte da Relação, se o mesmo traduzir a ofensa de qualquer norma legal, padecer de evidente ilogicidade ou se se basear em factos não provados.
V - A regra constante do art. 414.º do CPC, relativamente ao designado “ónus da prova objetivo”, tem aplicação nas situações em que, após o encerramento da audiência final, o tribunal fica num estado de dúvida insanável acerca dos factos em discussão, incerteza quanto à demonstração/não demonstração de certos factos, dúvida que se deve resolver contra a parte a quem tal facto aproveita.