I - Nos termos do art. 3.º da Lei n.º 144/99, de 31-08, a extradição rege-se pelas normas dos tratados, convenções e acordos internacionais que vinculem o Estado Português e, na sua falta ou insuficiência, pelas disposições deste diploma, sendo subsidiariamente aplicáveis as disposições do CPP.
II - Nas relações entre a República Portuguesa e a República Federativa do Brasil é aplicável a Convenção de Extradição entre os Estados Membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, de 2005 («Convenção CPLP» – Aviso n.º 183/2011, do MNE, de 11-08-2011, DR 1.ª Série, 11-08-2011).
III - A concessão da extradição, que só pode ser determinada por autoridade judicial (art. 33.º, n.º 7, da Constituição), depende da apresentação de um pedido do Estado estrangeiro, com o qual se inicia o processo de extradição, regulado nos arts. 44.º a 61.º da Lei n.º 144/99.
IV - O processo compreende a fase administrativa e a fase judicial (art. 46.º), destinando-se a fase judicial, da competência do tribunal da Relação, a decidir, com audiência do interessado, sobre a concessão da extradição por procedência das condições de forma e de fundo do pedido, não sendo admitida prova alguma sobre os factos imputados ao extraditando (art. 46.º, n.º 2).
V - Nos termos do art. 2.º («Factos determinantes da extradição») da Convenção CPLP, dão causa à extradição os factos tipificados como crime segundo as leis do Estado requerente e do Estado requerido, independentemente da denominação dada ao crime, os quais sejam puníveis em ambos os Estados com pena privativa de liberdade de duração máxima não inferior a um ano (n.º 1); se a extradição for requerida para o cumprimento de uma pena privativa da liberdade exige -se, ainda, que a parte da pena por cumprir não seja inferior a seis meses (n.º 2).
VI - Quando se tratar de pedido para cumprimento de pena, o pedido de extradição deverá ser acompanhado das informações e documentos referidos no art. 10.º, incluindo original ou cópia certificada da sentença condenatória, isto é, da sentença, transitada em julgado, que, verificando a culpabilidade do extraditando, lhe aplica a pena privativa da liberdade (pena de prisão) cujo cumprimento o Estado requerente visa assegurar mediante a entrega da pessoa condenada, por via do pedido de extradição.
VII - O Tribunal da Relação apreciou o pedido e os fundamentos da oposição (a requerida alegava que a extradição deveria ser negada por o crime ter sido cometido em território português e pelo facto de o julgamento ter ocorrido à revelia), que julgou improcedentes, decidindo, a final, deferir o pedido e ordenar a entrega da extraditanda ao Estado requerente.
VIII - Por se tratar de matéria de direito, deve o STJ, no âmbito dos poderes de conhecimento oficioso, verificar se subsiste motivo suscetível de afetar negativamente o sentido da decisão, independentemente do que vem alegado pela recorrente (que respeita aos fundamentos da oposição e a nulidades da sentença).
IX - Visto o pedido e verificados os documentos juntos, deles resulta que a requerida foi condenada, por sentença transitada em julgado, na pena de 2 anos de reclusão (prisão) em regime aberto (nos termos da al. c) do §2.º do art. 33.º do CP Brasileiro) e que, nessa mesma sentença condenatória, foi tal pena “privativa da liberdade” substituída por “duas penas restritivas de direitos, consistentes na prestação pecuniária no valor de 5 salários mínimos em favor da vítima” (prestação que, em recurso, foi substituída por um salário mínimo), nos termos dos arts. 44.º, I a III, e “na prestação de serviço à comunidade, na forma do art. 46.º” do CP Brasileiro, “cabendo ao Juízo de Execução das Penas indicar a entidade assistencial e o local da prestação de serviços”.
X - No processo de execução destas penas, a correr termos no Juízo de Execução das Penas, foi proferida decisão que converteu as “penas restritivas de direitos”, aplicadas na sentença, em “pena privativa da liberdade”, a cumprir em regime aberto, consoante imposto na sentença, em condições a fixar em “audiência de advertência”, tendo sido ordenada a expedição de mandados de prisão.
XI - Esta decisão do tribunal de execução das penas foi proferida num “incidente de execução das penas de restrição de direitos” e foi com base nela que foram emitidos mandados de detenção e formulado o pedido de extradição. Esta decisão ainda não definiu completamente os termos da conversão das penas em pena de prisão (“reclusão”) – o que só sucederá após a audição da requerida - e ainda não transitou em julgado.
XII - Conclui-se, pois, que o pedido de extradição não se destina a obter a entrega da extraditanda para cumprimento de uma pena de prisão (pena de “reclusão” que é uma pena “privativa da liberdade”, na terminologia do CP Brasileiro) aplicada numa sentença condenatória transitada em julgado (exequível). A pena aplicada na sentença condenatória, que é a pena constante de uma decisão transitada em julgado, não é uma pena privativa da liberdade; é uma pena “restritiva de direitos” (nos termos do mesmo Código).
XIII - Não havendo uma “sentença” condenatória que aplique uma pena de prisão, impõe-se a conclusão de que falece o pressuposto de condenação numa pena privativa da liberdade, a que se refere o art. 1.º da Convenção da CPLP, de que depende a formulação de um pedido de extradição para efeitos de cumprimento de uma pena dessa natureza.
XIV - Não havendo uma pena privativa da liberdade fixada numa sentença condenatória transitada em julgado no Estado requerente, não pode a extradição ser concedida.
XV - As questões que a propósito da execução da pena de prestação de serviço à comunidade se poderiam colocar, nomeadamente a do cumprimento da medida restritiva da liberdade e das consequências resultantes do incumprimento, estando a pessoa condenada a residir em Portugal, teriam de ser objeto de outra modalidade de cooperação, destinada à vigilância do cumprimento de condenações impondo obrigações ou medidas alternativas à prisão, a que se referem os arts. 126.º e ss. da Lei n.º 144/99, na medida em que pudessem ser aceites com base no princípio da reciprocidade (art. 4.º da Lei n.º 144/99), na ausência de instrumento semelhante à Convenção Europeia para a Vigilância de Pessoas Condenadas ou Libertadas Condicionalmente (Conselho da Europa, 30-11-1964, RAR n.º 50/94, e DPR n.º 65/94, de 12-08) ou, mais incisivamente, à Decisão-Quadro 2008/947/JAI, do Conselho da União Europeia, de 27-11-2008, transposta para o direito interno pela Lei n.º 158/2015, de 17-09.
XVI - Termos em que se acorda em, revogando a decisão recorrida, não autorizar a extradição da requerida para a República Federativa do Brasil.