I - No artigo 32.º, n.º 1, da CRP, e no artigo 48.º, n.º 2, da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, asseguram-se os direitos e garantias de defesa do arguido. Tal inclui o direito à interpretação e/ou a tradução, tendo em vista assegurar que o suspeito ou arguido consiga entender o processo movido contra si e exercer a sua defesa. Esse direito encontra tutela expressa nos artigos 1.º a 3.º da Diretiva 2010/64/UE e 3.º da Diretiva 2012/13/UE do Parlamento Europeu e do Conselho. Ele decorre do direito a um processo equitativo e, como já apontado pelo TEDH (Luedicke, Belkacem e Koç c. Alemanha, n.ºs 6210/73, 6877/75 e 7132/75, par. 48), aplica-se a todos os documentos ou afirmações que o arguido precise de compreender para que o processo seja justo.
II - O artigo 3.º, n.º 1, da Diretiva 2010/64/UE estabelece isto mesmo, e o seu n.º 2 inclui entre os documentos essenciais a traduzir “as decisões que imponham uma medida privativa de liberdade, a acusação ou a pronúncia, e as sentenças”.
III - As Diretivas n.º 2010/64/EU e n.º 2012/13/EU do Parlamento Europeu e do Conselho, concretamente as normas constantes dos artigos 1º a 3º da Diretiva n.º 2010/64/EU e 3º da Diretiva n.º 2012/13/EU, impõem que todos os atos processuais levados a efeito nas diversas fases do processo penal, com intuito eminentemente informativo e concretizador das garantias de defesa dos arguidos, sejam objeto de tradução para língua dominada pelos seus destinatários.
IV - As Diretivas impõem-se a todos os Tribunais no âmbito do território da União Europeia, por força do seu efeito direto vertical, mesmo que não tenham sido transpostas no ordenamento jurídico nacional, desde que preenchidos cumulativamente determinados requisitos, como é jurisprudência do Tribunal de Justiça. As Diretivas n.º 2010/64/EU e n.º 2012/13/EU reúnem todos os pressupostos para produzirem efeito direto vertical em Portugal, prevalecendo, inclusive, sob o direito interno (cf. artigo 8º da Constituição da República Portuguesa).
V - No caso vertente, temos nos autos um Certificado de Registo Criminal do arguido que inclui duas condenações de tribunais franceses, com expressões em francês, que não foram traduzidas.
VI - Porém, as expressões em língua francesa constantes do CRC do arguido não podem classificar-se como documento contemplado no n.º 3 do artigo 92.º, do Código de Processo Penal, e não têm qualquer importância ao nível das garantias de defesa do arguido, decorrente das informações processuais que aportam, não podendo, pois, tais informações ser qualificadas como «documentos essenciais» na aceção do artigo 3.°, n.ºs 1 e 2, da Diretiva 2010/64 e no n.º 6 do artigo 92.º do Código de Processo Penal.
VII - Segundo Figueiredo Dias (Comentário Conimbricense do Código Penal, tomo I, pág. 32), agir “por qualquer motivo torpe ou fútil significa que o motivo da actuação, avaliado segundo as concepções éticas e morais ancoradas na comunidade, deve ser considerado pesadamente repugnante, baixo ou gratuito, de tal modo que o facto surge como produto de um profundo desprezo pelo valor da vida humana”.
VIII - A jurisprudência vem entendendo que “constitui frieza de ânimo o processo reflexivo, lento, ponderado e calmo na preparação do projeto criminoso, nomeadamente na seleção dos meios a utilizar e na escolha daquele que menos possibilidade de defesa deixa à vítima”, como se sublinha no ac. do STJ de 29/09/2022, proc. nº 2289/20, disponível em www.dgsi.pt.
IX - No caso concreto, encontramos nos factos provados base para identificar tanto a frieza de ânimo (pelo período de aproximadamente um dia de intervalo entre a “provocação” pela vítima e a reação homicida do agente, pelas diligências usadas para conseguir uma arma nessas horas, ou pelos exercícios de treino a que o agente procedeu para garantir a eficácia no seu uso) como a determinação por um motivo fútil (o mero impedimento de entrada num estabelecimento de diversão noturna). Estes elementos demonstram o desprezo pela vida humana revelado pela atuação do agente (atenta a desproporcionalidade entre motivo e ação, a persistência firme no intento homicida ou a ligeireza ostentada na convivência num café logo após a prática do facto) e, em consequência, a especial perversidade e censurabilidade do comportamento.