I - Os Sumários dos Acórdãos dos tribunais superiores são da exclusiva responsabilidade do Relator do Acórdão e não do coletivo que julgou o pleito [artigos 663.º, número 7 e 679.º do NCPC], muito embora, como é natural, tais Sumários devam refletir as questões essenciais que, na perspetiva daquele, eram controvertidas e foram decididas nos correspondentes Arestos.
II – As normas de enunciação da factualidade alegada dada como assente e não assente não são, contudo, de funcionamento automático, uniforme e idêntico, variando grandemente em função das específicas pretensões de autor e réu e das respetivas causas de pedir – de facto e de direito -, da forma como estas últimas surgem apresentadas nos articulados dos mesmos ou como resultam da produção da prova e dos concretos meios probatórios e do direito regulador destes últimos que é chamado à colação.
III - O que interessa é que estejamos, a final, perante um conjunto de factos concretos, objetivos, neutros, isentos, imparciais, compreensíveis e relevantes para o julgamento do litígio dos autos, que sem prescindirem da complementaridade de documentos, exames periciais, inspeções ao local e outras provas que os completem, permitam, ainda assim, em si e por si, da sua leitura, um entendimento suficiente e global da matéria de facto que está em causa no processo.
IV - Ora, partindo destas ideias muitos gerais acerca da maneira como a factualidade provada e não provada deve ser inserida nas decisões judiciais, facilmente se descobre no Acórdão-Fundamento uma situação de insuficiência de factos nucleares, integradores do coração da causa ou causas de pedir da ação correspondente e dos quais dependem os pedidos formulados, que se impunha serem carreados para os autos – daí a anulação da sentença e a determinação da descida dos autos ao tribunal da 1.ª instância - dado a mera remissão seca e cega para o conteúdo dos recibos de vencimento ou outros documentos equiparados não suprir nem substituir a omissão dos factos em questão, que estavam, efetivamente, em absoluta falta, não obstante fundarem as pretensões creditícias dos Autores.
V - O cenário que se vive no Aresto recorrido é muito diverso, não apenas porque se reconduz à impugnação da licitude de um despedimento individual da Autora com base numa justa causa subjetiva e disciplinar, com as suas consequências legais [artigos 389.º a 392.º do Código do Trabalho de 2009], como ainda por não se descortinar na Decisão sobre a Matéria de Facto, que derivou do acordo das partes, uma qualquer lacuna ou insuficiência que reclamasse a anulação daquela mas antes alterações pontuais que tinham a ver com a redação pouco cuidada, porque, as mais das vezes, tendenciosa e eivada de extemporâneos e desnecessários juízos de valor, de alguns dos Pontos de Facto ou com o envio do intérprete e aplicador do direito para o texto truncado de emails que insinuavam, desde logo, uma censura ou uma visão negativa do seu texto e contexto [o que é natural, dado o acordo de Autora e Ré se ter radicado no texto dos articulados – cf. Ata de Audiência Final de 16/04/2024, que consta do processo principal].
VI - O Tribunal da Relação de Lisboa procedeu a uma «limpeza» [perdoe-se-nos a expressão] de alguns desses Pontos de Facto que se achavam viciados ou maculados por tais expressões, descrições ou transcrições convenientes, atribuindo-lhes, ao invés, um conteúdo mais rigoroso, distanciado, meramente factual, sem antecipações espúrias de culpas ou censuras, tendo o Aresto deste Supremo Tribunal de Justiça se limitado a confirmar tal procedimento que, como já se deixou antes referido, se revelou, as mais das vezes, favorável à posição da Autora, aqui recorrente, no âmbito dos respetivos autos.
VII - Logo, como já sustentado na Decisão Sumária Reclamada, não existem similitudes de raiz entre os factos, o direito e as realidades processuais efetivamente vividas nas duas ações e, nessa medida, entre os dois Acórdãos deste Supremo Tribunal de Justiça que, ao contrário do que é defendido pela Recorrente, não se contradizem ou opõem acerca da mesma questão essencial de natureza jurídica e que deriva da interpretação dos artigos 607.º, número 4 e 663.º, número 2 do Código de Processo Civil de 2013 que aquela faz.