I - Na aferição da legitimidade processual numa ação de revisão da sentença estrangeira, o que importa, tendo em atenção o disposto no art. 30.º do CPC, é que estejam em juízo os sujeitos da relação controvertida integrante do objeto do litígio na ação estrangeira, considerando o efeito jurídico pretendido com a ação de revisão e confirmação dessa sentença, assistindo legitimidade ativa a quem tiver interesse em demandar.
II - Estando em causa, na presente ação de revisão de sentença estrangeira, uma sentença proferida por um tribunal da Costa Rica homologatória de um acordo que os ora requeridos fizeram, no processo que aí correu termos, sobre a obrigação de alimentos a favor do seu filho, menor de idade, sendo este último o alimentado e credor dos alimentos, é ele o titular da relação material controvertida, tendo interesse em demandar, como fez, devidamente representado pelo Ministério Público.
III - Uma suposta omissão de pronúncia do acórdão recorrido (que julgou procedente a ação de revisão) quanto ao requerimento probatório constante da oposição (ou a alegações de facto feitas nessa peça processual) não constitui causa de nulidade do acórdão, nos termos do art. 615.º, n.º 1, al. d), do CPC.
IV - Tão pouco se verifica a causa de nulidade prevista no art. 615.º, n.º 1, al. e), do CPC pela circunstância de o acórdão se ter limitado a precisar que, em conformidade com o peticionado, estavam excluídos os efeitos de incumprimento previstos no considerando primeiro da sentença homologatória revidenda.
V - Como a revisão de sentença estrangeira não é uma revisão de mérito, mas antes uma revisão formal, e face aos poderes do STJ no julgamento de facto, ao objeto do recurso e ao princípio da limitação dos atos, não tem cabimento atender a pretensão do requerido, ora recorrente, no sentido de serem aditados, na decisão de facto, diversos factos que são substantivamente relevantes, mormente os atinentes às suas “possibilidades” para pagar a pensão de alimentos no montante fixado.
VI - Resultando dos factos provados que a citação do requerido para os termos da ação estrangeira foi efetuada e considerada regular pelo tribunal estrangeiro, não teria cabimento que os tribunais portugueses viessem agora exercer uma espécie de censura sobre esse juízo, tanto mais quando, no caso concreto, não se descortina como possa uma hipotética irregularidade da citação ter comprometido a defesa do requerido, incluindo a qualidade dessa defesa, já que foi efetivamente deduzida, tendo ele apresentado oposição, por intermédio de mandatário judicial, que também o representou na audiência de julgamento, na qual foi alcançado entre as partes o acordo que veio a ser homologado pela sentença estrangeira. Portanto, tudo indica que o requerido teve uma participação efetiva no desenvolvimento de todo o litígio, sendo de considerar que foram observados os princípios do contraditório e da igualdade das partes - cf. art. 980.º, al. e), do CPC.
VII - A falta de verificação do requisito da al. f) do art. 980.º do CPC supõe que o reconhecimento ou a execução da decisão estrangeira redunde, de forma manifesta, num resultado incompatível com um princípio fundamental ou uma regra de direito considerada essencial na ordem pública internacional do Estado português ou um direito reconhecido como fundamental nessa ordem jurídica, como é o caso do direito à liberdade e segurança (consagrado designadamente no art. 5.º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem).
VIII - Não releva para tanto a circunstância de, na sentença estrangeira (na tradução, devidamente corrigida, que foi considerada no acórdão recorrido), constar uma advertência quanto à possibilidade de ser aplicada uma pena de prisão por incumprimento da obrigação de alimentos aí em apreço, advertência essa que não integra o segmento decisório da sentença revidenda, nem foi vertida na parte dispositiva do acórdão. Com efeito, da procedência da presente ação e do eventual incumprimento da obrigação alimentícia assim reconhecida no nosso país não resulta que o requerido fique, em Portugal ou mesmo na Costa Rica, condenado a pena de prisão nos termos previstos na lei penal da Costa Rica, mas apenas que a decisão de revisão e confirmação da sentença será passível de execução no competente tribunal português (cf. art. 706.º do CPC), sem prejuízo de eventual responsabilidade penal nos termos previstos no art. 250.º do CP.