Processo 22637/22.7T8LSB-C.L1-12
Sumário (da exclusiva responsabilidade da relatora – art. 663º, nº 7, do CPC):
I. Mostra-se pacífico na jurisprudência que a nulidade de uma sentença por falta de fundamentação só ocorre quando o juiz omite totalmente os factos e as normas jurídicas que justificam a decisão, tornando-o um ato arbitrário. A errada, incompleta ou insuficiente fundamentação não integra a previsão da nulidade do artigo 615º, nº 1, al. b), do CPC.
II. A audição da criança prevista no artigo 5º do RGPTC comporta duas realidades distintas, com regimes diferenciados: (i) com vista à consideração da sua opinião sobre assuntos do seu interesse (nºs 1 a 5), com eventual confidencialidade; (ii) como meio probatório (nºs 6 e 7), sujeito ao princípio do contraditório.
III. Quando a audição é realizada como meio de prova, impõe-se a possibilidade de exercício do contraditório, mediante acesso às declarações.
IV. O tribunal não pode fundamentar a decisão no teor de declarações prestadas sob confidencialidade, as quais não podem ser valoradas como meio de prova, mas pode fazê-lo com base nas declarações que, ainda que prestadas em privado, tenham sido dadas a conhecer às partes, em momento prévio à decisão, garantindo o contraditório.
V. Do disposto no art. 195º, nº 1, do CPC, aplicável ex vi art. 33º, nº 1, do RGPTC, a prática de um ato que a lei não admita ou a omissão de uma formalidade que a lei prescreva só produz nulidade quando a lei assim o declare – o que não é o caso – ou quando possa influir no exame ou decisão da causa, sujeita a arguição pela parte interessada (cfr. arts. 196º e 197º, nº 1, do CPC).
VI. Desconsiderando as declarações prestadas sob confidencialidade, se os demais elementos de prova forem suficientes para decidir que não fica afetada a decisão sobre a matéria de facto, não há que anular a decisão da 1ª instância.
VII. Não tem a decisão meramente provisória, cautelar, de regulação das responsabilidades parentais, sempre norteada pelo critério do superior interesse da criança, que ter em conta os elementos probatórios supervenientes, a considerar na decisão final, sendo tomada em função dos elementos já obtidos (art. 38º, ex vi art. 43º, e art. 28º do RGPTC).
VIII. É pacífico que o art. 42º do RGPTC deve considerar-se como “lei especial” relativamente ao art. 988º do CPC, mas tal não obsta a que a interpretação do termo “circunstâncias supervenientes” deva ser feita de forma idêntica. Assim, as circunstâncias relevantes para efeitos do disposto no nº 1 do art. 42º da RGPTC podem ser objetiva ou subjetivamente supervenientes, ou seja, ocorridas posterior ou anteriormente à decisão, desde que só não tenham sido alegadas por ignorância ou outro motivo ponderoso, e devem, mais do que “justificar”, “tornar necessária” a alteração.
IX. A apreciação da verificação dessa necessidade de alteração deve nortear-se por critérios de conveniência e oportunidade, (sempre) com vista à satisfação do superior interesse da criança, sendo também certo que, nesse desiderato, como característica dos processos de jurisdição voluntária (cfr. art. 12º do RGPTC), o Tribunal não está sujeito a critérios de legalidade estrita, devendo adotar a solução que julgar mais conveniente e oportuna para cada caso em concreto.
