Processo 1953/26.4YRLSB-4
I – Os serviços mínimos constituem uma limitação ao exercício do direito de greve com expressa previsão constitucional e devem assegurar o nível mínimo de prestação susceptível de cobrir aquilo que mereça a qualificação de «necessidades sociais impreteríveis».
II – A alimentação dos reclusos enquadra-se neste tipo de necessidades cuja satisfação imediata é impreterível, pois não pode, pela sua natureza, ficar privada de satisfação enquanto durar uma greve pelo período de dois meses.
III – A simples manutenção em funcionamento da padaria do Estabelecimento Prisional com vista a assegurar o fornecimento de pão aos reclusos não satisfaz cabalmente a necessidade de alimentação destes, apesar da importância do pão na dieta alimentar, pelo que o não funcionamento da padaria não pode considerar-se susceptível de afectar uma necessidade social impreterível e de atingir o conteúdo essencial do direito à alimentação.
IV – O princípio da proporcionalidade, enquanto pressuposto material para a restrição legítima de direitos, liberdades e garantias, particularmente na dimensão do sub-princípio da exigibilidade, pressupõe a demonstração de que o fim visado pela medida restritiva não poderia ser obtido de forma menos onerosa para o direito à greve.
V – Ainda que se considere que o não funcionamento da padaria do Estabelecimento Prisional impede a satisfação de uma necessidade social impreterível, os serviços mínimos em que se consubstancia a manutenção daquele funcionamento não observam o princípio da proporcionalidade, na sua dimensão de exigibilidade, por não poder afirmar-se que o simples fornecimento de pão aos reclusos não podia ser obtido por outro meio menos oneroso e não restritivo do direito à greve dos elementos da guarda prisional que nela laboram (como, por exemplo, o fornecimento por entidade externa ao estabelecimento). (sumário da autoria da Relatora)
