(Artigo 663.º, n.º 7, do Código de Processo Civil)
I – Nos processos tutelares cíveis, o efeito meramente devolutivo constitui a regra, nos termos do artigo 32.º, n.º 4, do RGPTC, apenas devendo ser afastado quando circunstâncias concretas ligadas ao superior interesse da criança imponham solução diversa.
II – A alegação, em sede de recurso, de factos supervenientes à decisão recorrida pode, em determinadas circunstâncias, ser atendida, nos termos dos artigos 611.º e 663.º, n.º 2, do CPC, desde que a sua consideração não provoque perturbação inconveniente do julgamento da apelação.
III – Não devem, porém, ser considerados pela Relação factos supervenientes controvertidos e desacompanhados de prova bastante, quando o respetivo apuramento exija nova atividade instrutória, tanto mais tratando-se de recurso de decisão provisória em processo tutelar cível, cuja reapreciação, à luz de circunstâncias posteriores, pode ser efetuada pela primeira instância ao abrigo do artigo 28.º do RGPTC.
IV – A prolação de decisão antes de esgotado o prazo concedido à parte para exercer o contraditório configura, em princípio, nulidade processual secundária, sujeita ao regime dos artigos 195.º e 199.º do CPC, devendo ser arguida perante o tribunal onde foi cometida e, estando a parte presente, antes de terminar o ato.
V – Não existe verdadeira decisão-surpresa quando a parte conhecia previamente os elementos considerados pelo tribunal, tomou posição sobre a respetiva admissibilidade e relevância e optou expressamente por não responder de forma circunstanciada a determinada matéria por a reputar irrelevante.
VI – A nulidade prevista no artigo 615.º, n.º 1, alínea b), do CPC apenas ocorre perante falta absoluta de fundamentação, não se confundindo com fundamentação insuficiente ou com a discordância quanto à consistência dos elementos valorados, questões estas que respeitam ao mérito da decisão.
VII – A impugnação da decisão relativa à matéria de facto deve ser rejeitada quando, embora seja possível identificar os segmentos factuais questionados, o recorrente não estabeleça, de forma suficientemente concretizada, a necessária correspondência entre cada questão de facto, os meios probatórios específicos que imporiam decisão diversa e o concreto sentido da alteração pretendida, não se mostrando observados os ónus previstos no artigo 640.º, n.º 1, alíneas b) e c), do CPC.
VIII – As questões desenvolvidas no corpo das alegações mas não transpostas para as conclusões não integram, em regra, o objeto do recurso, delimitado pelos artigos 635.º, n.º 4, e 639.º, n.º 1, do CPC, salvo quando sejam de conhecimento oficioso.
IX – Não integrando autonomamente o objeto do recurso a questão da falta de audição da criança, essa circunstância pode, todavia, ser ponderada na apreciação do mérito do regime provisório, reforçando a natureza estritamente provisória do juízo formulado e aconselhando particular prudência na sua ulterior estabilização.
X – A circunstância de determinados elementos probatórios se reportarem a período temporal anterior não determina, por si só, a sua irrelevância para uma decisão provisória, podendo ser valorados como elementos de contexto quando conjugados com acontecimentos posteriores reveladores da evolução da dinâmica familiar, não devendo, porém, ser erigidos isoladamente em fundamento bastante para uma alteração significativa do regime.
XI – A decisão provisória prevista no artigo 28.º do RGPTC assenta num juízo cautelar e sumário, fundado nos elementos então disponíveis, não exigindo demonstração definitiva dos factos controvertidos, bastando que estes apresentem consistência indiciária suficiente para justificar uma intervenção preventiva.
XII – A supervisão dos contactos entre a criança e um progenitor pode mostrar-se adequada enquanto subsistam elementos cautelares que a justifiquem, mas a respetiva concretização não deve ficar exclusivamente dependente da disponibilidade de uma única estrutura quando exista alternativa idónea que permita preservar, em segurança, a regularidade da convivência.
XIII – A continuação de acompanhamento psicológico de natureza assistencial ou terapêutica não se confunde com o valor probatório do relatório elaborado pelo respetivo profissional, devendo este último ser autonomamente apreciado de forma crítica, em função das circunstâncias da intervenção, das fontes de informação utilizadas, da metodologia seguida e das respetivas limitações.