Processo 404/25.6T8BAO.P1
I - O princípio do primado do direito da União Europeia, a impor, na aplicação do direito, a prevalência do direito comunitário sobre o direito dos Estados-membros, tem como destinatário o juiz nacional, porquanto é a ele que cabe afastar a aplicação da norma nacional e convocar, para a solução do caso, a regra europeia.
II - O Regulamento (UE) nº650/2012 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 4 de julho de 2012, “relativo à competência, ... em matéria de sucessões”, é diretamente aplicável nos Estados-Membros e prevalece sobre normas nacionais (cfr. nº4, do art. 8º CRP e 59º, do CPC).
III - Ocorrendo uma situação com elementos de conexão com duas ordens jurídicas, decorrente de o de cujus, de nacionalidade portuguesa, no momento do seu óbito (no ano de 2025), ter a sua última residência habitual num Estado não membro, deixando bens em Portugal, cabe recorrer ao referido Regulamento (que passou a ser aplicável a partir de 17/8/2015) para aferir da competência internacional dos tribunais portugueses.
IV - E não se aplicando a competência regra, nele consagrada, no art. 4.º, por a residência habitual se não encontrar num Estado-Membro, dada a existência de bens da herança em Portugal e o falecido ser português, convocando-se o art. 10.º, n.º 1, al. a), a prever competência residual, resulta serem os tribunais portugueses competentes para decidir da totalidade da sucessão, não sendo de recorrer, para efeitos da determinação da competência internacional dos tribunais portugueses, às normas de direito internacional privado, previstas no Código Civil Português.
V - Com efeito, consagra o Regulamento em apreço: i) uma competência geral: a competência do Estado-Membro da residência habitual do falecido no momento do óbito (residindo ele num Estado-Membro) - artigo 4º; e ii) competências subsidiárias: na falta de residência habitual num Estado membro, a competência dos tribunais do Estado-Membro onde se encontrem bens da herança - art. 10º -, convocados a decidir no caso de o falecido possuir a nacionalidade desse Estado (v. al. a), do nº1).
VI - Deste modo, nas circunstâncias do caso, os Tribunais Portugueses são internacionalmente competentes para o processo de inventário, por força deste preceito, dado tratar-se de ação para partilha de bens de um português falecido na vigência do regulamento, com residência habitual em Estado não membro e encontrando-se bens da herança em Portugal (Estado Membro).
