Processo 1071/25.2T8GMR-A.G1
1- São gerentes de direito aqueles que foram formalmente investidos no exercício da função de gerência, os quais, com essa investidura, ficam automaticamente investidos num conjunto de poderes-deveres que têm de exercer em prol da sociedade e dos credores e que, por isso, têm a legitimidade legal para a administrar e representar. 2- São gerentes de facto aqueles que, apesar de não terem sido investidos formalmente na função de gerência, exercem, de forma concreta, autónoma e continuada, essas funções, definindo de forma global o destino da sociedade, exclusivamente ou conjuntamente com os gerentes de direito e/ou outros gerentes de facto da sociedade. 3- Ao preenchimento da presunção inilidível de insolvência culposa da al. h) do n.º 2 do art.º 186º do CIRE exige-se que o devedor, ou aos seus administradores, de direito ou de facto, nos três anos anteriores ao início do processo de insolvência, tenham: a) ou incumprido, em termos substanciais, a obrigação de manter contabilizada organizada, de acordo com as regras prescritas no SNC, aprovado pelo D.L. n.º 158/20009, de 13/07; b) ou mantenham uma contabilidade fictícia (enganosa/engenhosa) ou uma dupla contabilidade; c) ou pratiquem uma irregularidade contabilística com prejuízo relevante para a compreensão da situação patrimonial e financeira do devedor. Qualquer uma dessas situações (ausência de contabilidade tout court, contabilidade fictícia, dupla contabilidade ou o cometimento de irregularidade contabilística com aquelas caraterísticas) não permite apreender a verdadeira situação patrimonial e financeira do devedor, de modo a perceber as causas da insolvência ou do seu agravamento, a determinação do sujeito ou sujeitos responsáveis por essa situação, quais os atos ou por eles praticados ou omitidos, da (i)licitude e do grau de culpa desses atos ou omissões e do respetivo contributo para a criação ou o agravamento do estado de insolvência do devedor. 4- Ao preenchimento da presunção inilidível de insolvência culposa da al i) do n.º 2 do art.º 186º do CIRE exige-se a demonstração de solicitações formais por parte das pessoas identificadas no art.º 83º do CIRE, dirigidas ao devedor, ou aos seus administradores, de direito ou de facto, para que cumpram com os deveres de apresentação e colaboração enunciados naquela norma, e a recusa persistente destes em cumprirem com esses deveres até à data da elaboração pelo administrador da insolvência do parecer quanto à qualificação da insolvência, privando-o dos elementos e informação necessários para que possa emitir o parecer em causa de forma fundamentada. 5- Por conseguinte, não se pode concluir pelo preenchimento daquela presunção em relação à gerente de facto da devedora, quando as cartas remetidas pelo administrador da insolvência tinham como destinatário a própria devedora e o seu gerente de direito. 6- A presunção inilidível de insolvência culposa da al. g) do n.º 2 do art.º 186º do CIRE exige que o devedor, ou os seus administradores, de direito ou de facto, nos três anos anteriores ao início do processo de insolvência, ignorem os sinais do colapso económico da empresa, optando por prolongar artificialmente a sua atividade, que já não gera lucro, mas apenas prejuízo, sabendo ou devendo saber, que ela conduzirá com grande probabilidade à insolvência da devedora, com o propósito específico de prosseguir essa atividade deficitária em proveito próprio ou de terceiro. 7- A nulidade da sentença por falta de fundamentação pressupõe a total e absoluta ausência de motivação. A fundamentação deficiente, medíocre, incompleta ou sumária não dita a nulidade da sentença.
