Processo 1047/25.0JAPRT.G1
I - No crime de tráfico de pessoas, previsto e punido pelo artigo 160.º, n.º 1, als. b) e c), do CP, o bem jurídico protegido é a liberdade de acção e de decisão, traduzindo-se a conduta proibida na violação qualificada da liberdade pessoal, idónea a reduzir o ofendido às categorias de objecto ou instrumento, usado com finalidade puramente mercantilista e cuja exploração provoca a sua conversão de pessoa titular dos mais elementares direitos inerentes à sua condição humana em mero meio ou instrumento para os fins económicos visados pelo agente do crime.
II - Trata-se de um crime de intenção, de resultado cortado e de execução vinculada quanto aos meios utilizados, exigindo-se, no plano do tipo subjectivo, que o agente actue na prossecução da exploração do trabalho da vítima, logo com dolo directo ou intencional.
III - Para que se verifique uma situação de exploração laboral enquadrável no crime de tráfico de pessoas não é suficiente que as condições de trabalho sejam muito inferiores ao padrão legalmente exigível, configurando uma violação dos direitos do trabalhador (com maior ou menor gravidade), devendo essa exploração equivaler ao conceito de trabalho forçado, previsto no artigo 2.º, n.º 1, da Convenção 29 da OIT.
IV - A incriminação do auxílio à imigração ilegal tutela a necessidade do estado impor requisitos para a entrada, permanência e trânsito de pessoas em território nacional e controlar o fluxo migratório.
V - Na sua modalidade qualificada, protege igualmente bens jurídicos eminentemente pessoais, por via da disposição contida no n.º 3 do artigo 183.º da Lei n.º 23/2007, razão pela qual, nas situações em que se comprove esta agravação e esteja em causa um concurso de crimes, verificar-se-á um crime por cada por cada uma das pessoas visadas pela conduta típica.
VI - Trata-se de um crime: de perigo no seu tipo base, sendo de dano e de perigo concreto na previsão do tipo qualificado previsto no n.º 3 do artigo 183.º; de execução livre, tendo como sujeitos passivos os cidadãos estrangeiros; ao nível subjectivo exige-se que a conduta seja realizada com dolo genérico, pese embora se imponha, na circunstância intencional agravante prevista no n.º 2 do artigo 183.º, que a acção típica seja desenvolvida com dolo directo e específico (intenção lucrativa).
VII - Estamos perante a prática de um só crime de auxílio à imigração ilegal quando os agentes agem a coberto da mesma resolução.
