Jorge Adriano Carlos Advogado
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Jurisprudência

Processo 1215/2023

Acórdão n.º 192/2026

2026-02-19 Tribunal Constitucional Constitucional Constitucional Acordao Proc. 1215/2023

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Constitucional - Acordao n.º 1215/2023
DÃO Nº 192/2026

 

Processo
n.º 1215/2023

Plenário

 

 

Aos
dezanove dias do mês de fevereiro de dois mil e vinte e seis, achando-se
presentes o Conselheiro Presidente José João Abrantes e Conselheiros Mariana
Canotilho, Dora Lucas Neto, Afonso Patrão, António Ascensão Ramos, Joana
Fernandes Costa, João Carlos Loureiro, Maria Benedita Urbano, José Eduardo
Figueiredo Dias, Rui Guerra da Fonseca e Carlos Medeiros de Carvalho, foram
trazidos à conferência os presentes autos.

 

Após
debate e votação, e apurada a decisão do Tribunal, foi pelo Exmo. Conselheiro
Presidente ditado o seguinte:

 

I.
Relatório

 

1.
Através
de exposição datada de 20 de novembro de 2023 – cf. fls. 2 e 4 dos autos –,
veio o Requerente A., na qualidade de «vogal/deputado da Assembleia
Municipal da …» suscitar, junto deste Tribunal, a questão de saber se se
encontrava obrigado à apresentação de declaração única de rendimentos,
património, interesses, incompatibilidades e impedimentos, nos termos da Lei
n.º 52/2019, de 31 de julho.

 

1.1.1. Através de despacho do
Presidente do Tribunal Constitucional datado de 22 de novembro de 2023 (cf.
fls. 5), este determinou a autuação de um processo de dúvidas, ao abrigo
do disposto no artigo 109.º, n.º 2, da Lei de Organização, Funcionamento e
Processo do Tribunal Constitucional, na versão que resulta da Lei Orgânica n.
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º
1/2018, de 18 de abril (“LTC 2018”), tendo em conta o regime transitório
prescrito no artigo 5.º da Lei Orgânica n.º 4/2019, de 13 de setembro, e que
fosse feita vista do mesmo ao Ministério Público junto deste Tribunal, para os
devidos efeitos legais.

 

1.1.2. Nessa sequência, o
Ministério Publico apresentou parecer, em 5 de dezembro de 2023, nos seguintes
termos (cf. fls. 6 a 11):

“[…]

Em
face do que, nos termos e para os efeitos dos n.ºs 2 e 3 do artigo 109.º da Lei
de organização, funcionamento e processo do Tribunal Constitucional [na redação
da Lei Orgânica n.º 1/2018, de 19 de abril, aplicável ex
vi do artigo 5.º, n.º 1, da Lei Orgânica n.º 4/2019, de 13 de setembro (Aprova
o Estatuto da Entidade para a Transparência e proceda à nona alteração à Lei
n.º 28/82, de 15 de novembro, que aprova a organização, funcionamento e
processo do Tribunal Constitucional)], resta concluir que os membros dos órgãos
deliberativos do poder local – isto é, os membros das assembleias municipais,
como é precisamente o caso do requerente (A.) e, ainda, os membros das
assembleias de freguesia – não estão sujeitos ao cumprimento do disposto na Lei
n.º 52/2019, de 31 de julho.

E,
como tal, também, não estão legalmente obrigados a apresentar a “declaração
única de rendimentos, património, interesses, incompatibilidades e
impedimentos” prevista nos respetivos artigos 13.º, n.º 1, e 14.º, n.º 1.”

 

1.1.3.
Por
despacho proferido pelo Presidente do Tribunal Constitucional, em 7 de dezembro
de 2023, foi assegurado o contraditório, determinando-se a notificação do
Requerente do teor do parecer do Ministério Público (cf. fls. 12 a 13).

 

1.1.4. Sem que tenha sido
aberta conclusão ou proferido qualquer despacho nesse sentido pelo Presidente
do Tribunal Constitucional, a 4.ª Secção procedeu ao arquivamento dos autos em
22 de fevereiro de 2024 (cf. fls. 15).

 
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1.2.
Em 11 de
abril de 2025, o Ministério Público junto deste Tribunal apresentou
requerimento dirigido ao Presidente do Tribunal Constitucional a requerer que a
questão objeto dos autos fosse submetida a decisão do Plenário, nos termos do
artigo 109.º, n.º 2, da LTC 2018 (cf. fls. 16 a 17). 

 

1.2.1.
Por despacho do Presidente do Tribunal Constitucional
proferido em 24 de abril de 2025, a pretensão do Ministério Público foi
indeferida e confirmado o arquivamento dos autos, com os seguintes fundamentos
(cf. fls. 18 a 21):

“[…]

A
título prévio, esclareça-se que, nos termos do n.º 2 do referido artigo 109.º
da LTC 2018, «ocorrendo dúvida, mesmo após a notificação referida no número
anterior, sobre a existência, no caso, do dever de declaração, o Presidente
submeterá a questão ao Tribunal, que decidirá em sessão plenária». Ou seja,
segundo o regime pretérito, a submissão da questão ao Plenário do Tribunal
Constitucional era sempre precedida de uma decisão do respetivo Presidente.

Na
ausência de norma transitória específica, poderia sustentar-se que os processos
por dúvidas iniciados antes da entrada em vigor da Lei Orgânica n.º 4/2019
deveriam seguir os seus termos até final, alegando-se, para esse efeito, que
essa seria a solução mais conforme aos dois parâmetros constitucionais
convocados, em regra, pela sucessão de regimes processuais: o direito à tutela
judicial efetiva (cf. artigo 20.º da Constituição) e a proteção da confiança
dos interessados que se extrai, implicitamente, da ideia basilar de Estado de
direito (cf. artigo 2.º da Constituição).

Todavia,
afigura-se-nos que nem estes vetores constitucionais encontram aplicação no
caso vertente, nem tal solução se acharia conforme ao sentido geral da
disciplina normativa que veio a ser instituída pela Lei Orgânica n.º 4/2019 e
pela Lei n.º 52/2019, de 31 de julho.

Com
efeito, os processos por dúvidas não dirimem qualquer litígio, nem se mostram
indispensáveis à efetividade ou exercício de qualquer direito ou posição
jurídica substantiva, constituindo mero expediente processual de clarificação
de determinado dever declarativo, cuja decisão a lei veio a revestir da força
de caso julgado, no que concerne ao dever de apresentação de declaração e
atenta a natureza jurisdicional do Tribunal Constitucional (cf. artigo 109.º,
n.º 3, da LTC 2018).
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Aliás,
do incumprimento da obrigação declarativa não resulta para o declarante, e em
primeira linha, outra consequência jurídica além da interpelação, pela entidade
competente, para apresentar a declaração, no prazo de 30 dias (cf. artigo 18.º,
n.º 1, da Lei n.º 52/2019).

Por
outro lado, não se vê como a existência, ou não, deste meio processual pudesse
ter condicionado, de qualquer forma, a atuação do requerente, ao ponto de
justificar um investimento de confiança ou gerado uma conduta ou expectativa
alicerçada numa confiança legítima, a reclamar a prossecução de tais processos
até final.

Assim
sendo, à questão suscitada deve responder-se considerando, no essencial, o
paralelismo que, manifestamente, subjazia àquele artigo 109.º da LTC 2018,
entre as competências que anteriormente eram exercidas pelo Tribunal
Constitucional, por um lado, e a dissipação da dúvida objeto de tais processos,
por outro.

Dito
de outro modo: o Tribunal Constitucional tomava decisão com força de caso
julgado sobre tais dúvidas porque era a ele que competiria sempre a verificação
da entrega das declarações.

Contudo,
tal paralelismo quebrou-se com a entrada em funcionamento da Entidade para a Transparência,
na medida em que é esta atualmente competente para receber e escrutinar, em
primeira linha, as declarações, bem como para proceder à notificação para a sua
entrega e comunicar ao Ministério Público a falta dessa entrega, nos termos do
artigo 18.º, n.º 1, da Lei n.º 52/2019, de 31 de julho.

O
que significa que a norma do n.º 1 do anterior artigo 109.º da LTC 2018 deixou,
inequivocamente, de vigorar, limitando-se hoje a competência do Tribunal
Constitucional, em matéria de titulares de cargos políticos, ao disposto no
artigo 11.º-A da LTC, de que se destaca a decisão dos recursos de decisões
proferidas pela Entidade para a Transparência.

Do
exposto resulta que a prossecução até final deste processo por dúvidas, após a
plena entrada em funcionamento da Entidade para a Transparência, não só não é
reclamada por qualquer princípio constitucional, como brigaria com a repartição
de competências estabelecida entre a Entidade para a Transparência e o Tribunal
Constitucional, conduzindo à prolação de decisão com a força de caso julgado
fora do âmbito de uma intervenção estritamente recursória,
que é aquela hoje reservada ao Tribunal Constitucional, em linha com o estatuto
de independência da Entidade para a Transparência.
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Assim,
concluímos que, sob pena de manifesta contradição com o regime jurídico
entretanto instituído, a entrada em funcionamento da Entidade para a
Transparência determinou a imediata e automática extinção da competência do
Tribunal Constitucional para a prolação de decisão no âmbito deste processo por
dúvidas, que se encontrava pendente.

Pelo
exposto, confirma-se, para todos os efeitos, o arquivamento dos autos.”

 

1.2.2.
Inconformado
com o referido despacho, veio o Ministério Público apresentar reclamação,
invocando a ilegalidade do mesmo, por violação do artigo 109.º, n.º 2, da LTC
2018, considerando que o Presidente deste Tribunal avocara, sem fundamento
legal, um poder que não lhe pertence ao concluir pelo arquivamento dos autos,
sem submeter a questão ao Plenário (cf. fls. 23 a 30).

Alega,
ainda, a pretensa contradição entre a posição ora adotada pelo Presidente e a
posição que aquele sustentou com respeito à manutenção em vigor dos deveres de
fiscalização, a cargo do Ministério Público, das declarações entregues em
papel, neste Tribunal, antes da entrada em funcionamento da Entidade para a
Transparência, e vertida em Nota do Gabinete de 9 de abril de 2024, que veio a
ser acolhida em deliberação do Plenário datada de 17 de abril de 2024.

Por
conseguinte, conclui o ora Reclamante que «(…) deverá o Plenário do Tribunal
Constitucional tomar conhecimento da presente reclamação e, concedendo-lhe
provimento, decidir, a final, ao abrigo do prescrito no artigo 109.º, da Lei
n.º 28/82 (Lei do Tribunal Constitucional), na redação dada pela Lei n.º
1/2018, de 18 de abril que o requerente não se encontra vinculado à
apresentação de “declaração única de rendimentos, património, interesses,
incompatibilidades e impedimentos”».

Cumpre
apreciar e decidir.

 

II.
Fundamentação

 

A)    A título prévio: da
admissibilidade da presente Reclamação
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2.1. A
título preambular, importa reter que o ora Reclamante não invoca qualquer fundamento legal
expresso para alicerçar a reclamação e a respetiva admissibilidade.

Com
efeito, como acima mencionado, a argumentação do ora
Reclamante cinge-se a arguir a inadmissibilidade da decisão do
Presidente, uma vez que este estava obrigado a submeter a questão ao Plenário, independentemente
do entendimento que aquele sufragasse acerca da subsistência e aplicabilidade
do meio processual em causa.

Salvo
melhor entendimento, cremos que tal argumentário não
pode colher, na medida em que contende com elementares princípios de economia
processual e da proibição da prática de atos inúteis, o que bem se evidencia
por mero confronto com as competências do relator em sede de fiscalização
concreta, o qual tem um poder/dever de proferir decisão sumária, sempre que
entenda não dever conhecer-se do objeto do recurso (cf. artigo 78.º-A da  LTC).

Sem
prejuízo disso, já não repugna que opere in casu,
por analogia, a garantia processual de reclamação para a conferência,
contemplada no artigo 78.º-A, n.º 3, da LTC, sendo que, na economia do artigo
109.º da LTC 2018, a competência tipicamente exercida pela conferência tem de
caber ao Plenário.

Dilucidada
esta questão prévia, passaremos a apreciar, em seguida, a questão da
subsistência ou não, na ordem jurídica, do meio processual contemplado no
artigo 109.º da LTC 2018, após a entrada em funcionamento da Entidade para a
Transparência e a entrada em vigor das alterações à LTC 2018 decorrentes da Lei
Orgânica n.º 4/2019, de 13 de setembro.

 

B)    Da subsistência na ordem
jurídica do meio processual contemplado no artigo 109.º da LTC 2018

 

2.2.
O
processo de entrada em funcionamento da Entidade para a Transparência e,
portanto, de plena entrada em vigor das alterações à LTC introduzidas pela Lei
Orgânica n.º 4/2019 arrastou-se no tempo para além do que seria previsível e,
seguramente, bem para além do que terá sido previsto pelo próprio legislador,
que logo determinou, no n.º 2 do respetivo artigo 4.
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º, que «o Governo
disponibiliza as instalações para a Entidade para a Transparência no primeiro
semestre de 2020, preferencialmente fora das Áreas Metropolitanas de Lisboa e
do Porto», o que só veio a ocorrer em agosto de 2023.

Fruto,
porventura, dessa previsão otimista quanto ao prazo de implementação da
Entidade para a Transparência, o legislador daquela Lei Orgânica não
estabeleceu mais do que um regime transitório muito sumário e consignado no artigo 5.º da mesma Lei Orgânica, onde se estatui,
simplesmente, que «até à instalação da Entidade para a Transparência, as
declarações únicas de rendimentos, património e interesses continuam a ser
entregues junto do Tribunal Constitucional e a ser escrutinadas nos termos do
regime anterior» (cf. n.º 1) e que «até à implementação da plataforma
eletrónica prevista na lei que permita a sua apresentação e tratamento digital,
as declarações únicas de rendimentos, património e interesses são entregues em
papel» (cf. n.º 2).

Destas
disposições legais deriva um dever de continuidade do escrutínio das
declarações entregues em papel neste Tribunal, ou seja, de fiscalização e de
verificação da conformidade daquelas declarações com a legislação pertinente,
sob pena de ostensiva quebra dos princípios da legalidade e da igualdade de
tratamento dos declarantes, como já este Plenário assinalou na sua deliberação
de 17 de abril de 2024 e como o próprio Reclamante reconhece, agora, na sua
Reclamação.

 

2.3. Mas deriva também a
subsistência do meio processual contemplado no artigo 109.º da LTC 2018, após a
entrada em funcionamento da Entidade para a Transparência. É nesse sentido
inequívoco aquele artigo 5.º da Lei Orgânica n.º 4/2019.

No
caso dos autos, o processo foi iniciado antes da entrada em funcionamento da
Entidade para a Transparência, inexistindo disposição legal expressa que
determine a extinção dos processos cuja tramitação se encontrava já a correr
nesse momento. Assim sendo, afigura-se dever encontrar aplicação in casu a regra geral segundo a qual a competência se
afere no momento da propositura da ação, permanecendo essa competência,
em princípio, incólume a vicissitudes ulteriores.

 

2.4.
Pelas razões
expostas, julga-se procedente a Reclamação em apreço, revogando-se o Despacho
reclamado e passando a conhecer-se, em seguida, do mérito do processo,
apreciando e decidindo a dúvida suscitada nos autos.
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C)    Apreciação e decisão da
dúvida objeto dos autos

 

2.5. Como já se referiu, o
Requerente suscita, na qualidade de «vogal/deputado da Assembleia Municipal da …»,
a questão de saber se se encontra obrigado à apresentação de declaração única
de rendimentos, património, interesses, incompatibilidades e impedimentos, nos
termos da Lei n.º 52/2019, de 31 de julho.

Conforme
se lê no Acórdão n.º 506/2023, o processo de dúvidas constitui «meio
processual afim da ação de simples apreciação, o que
justifica, aliás, como também é próprio de qualquer intervenção jurisdicional
de simples apreciação, que a dúvida a dilucidar seja pertinente, especialmente
relevante ou qualificada, porque à atividade judiciária
não compete, por via de regra e como é consabido, uma intervenção com escopo
limitado a declarar o Direito».

Numa
abordagem rigorosa, e como se compreenderá em seguida, talvez devesse
considerar-se que a dúvida suscitada em concreto, nos autos, não reúne estes
requisitos. Em todo o caso, sempre se apreciará, muito sumariamente, a questão
em apreço.

 

2.6.
Assim,
importa começar por referir que a disposição pertinente da Lei n.º 52/2019, de
31 de julho, é a alínea i) do n.º 1 do artigo 2.º, onde se estatui que
são cargos políticos, para os efeitos dessa lei, «os membros dos órgãos
executivos do poder local», donde se infere, a contrario
sensu, que os membros de órgãos não executivos não se inserem no âmbito de
aplicação subjetivo deste diploma legal. A dúvida interpretativa pode apenas
suscitar-se porque, no direito pregresso, a alínea m) do n.º 1 do artigo
4.º da Lei n.º 4/83, de 2 de abril (com alterações posteriores), qualificava
expressamente como titulares de cargos políticos o presidente e os vereadores
de câmaras municipais, tornando ainda mais óbvio, a contrario
sensu, que os deputados das assembleias municipais não se encontravam
abrangidos pelo respetivo regime jurídico.

A
Lei n.º 52/2019 não esclarece, ela própria, quais são os órgãos executivos do
poder local, havendo que dilucidar tal questão, naturalmente, em face do Regime Jurídico das Autarquias Locais (RJAL), aprovado pela Lei
n.º 75/2013, de 12 de setembro, com alterações posteriores.
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Aliás, ainda antes do RJAL, é a própria
Constituição que, no seu artigo 239.º, inserido no respetivo Título VIII,
dedicado ao poder local, e sob a epígrafe «órgãos deliberativos e executivos»,
prescreve que «a
organização das autarquias locais compreende uma assembleia eleita dotada de
poderes deliberativos e um órgão executivo colegial perante ela responsável».

Por sua vez, e em concretização mencionado
preceito da Lei Fundamental, os n.ºs 1 e 2 do artigo 6.º do RJAL esclarecem,
lapidarmente, a natureza dos órgãos autárquicos, nos seguintes termos:

 

«1 - A
assembleia de freguesia e a assembleia municipal são os órgãos deliberativos,
respetivamente, da freguesia e do município.

2 - A
junta de freguesia e a câmara municipal são os órgãos executivos,
respetivamente, da freguesia e do município».

 

Em
face do que antecede, e sem necessidade de mais considerações, afigura-se claro
que, como concluiu o Ministério Público na promoção constante dos autos, a
assembleia municipal não constitui órgão executivo, nos termos e para os
efeitos da alínea i) do n.º 1 do artigo 2.º da Lei n.º 52/2019, de 31 de
julho, não se encontrando os deputados municipais sujeitos às obrigações
declarativas previstas nessa mesma lei.

 

III.
Decisão

 

Pelo
exposto, o Tribunal Constitucional defere a Reclamação apresentada pelo Exmo.
Magistrado do Ministério Público junto deste Tribunal e, apreciando o pedido,
pronuncia-se no sentido de que a assembleia municipal não constitui órgão
executivo, nos termos e para os efeitos da alínea i) do n.º 1 do artigo
2.º da Lei n.º 52/2019, de 31 de julho, não se encontrando os deputados
municipais sujeitos às obrigações declarativas previstas nessa mesma lei.

 
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Afonso Patrão - António José da Ascensão Ramos - Joana
Fernandes Costa - Maria Benedita Urbano - Rui Guerra da Fonseca
- Carlos Medeiros de Carvalho.

 Atesto o voto de
conformidade dos Senhores Conselheiros Vice-Presidente João Carlos Loureiro
e José Eduardo Figueiredo Dias, que participaram por meios telemáticos.

José João Abrantes

 

 

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